E então, como vai a guerra dos teus animais íntimos? Sei que parece fantástico, mas a história dos bichos que moram dentro da gente não é brincadeira. Conheci um casal que passou pelo problema. Encontraram-se ainda adolescentes e amaram-se perdidamente. Fizeram planos, juraram amor eterno, queriam filhos, netos e bisnetos. Iriam construir casa, contribuir com o dizimo pastoral, ser comunitários, beneméritos, gente boa. Só não gostavam de bichos, e isso ficou bem claro e combinado. Nada de bichos dentro de casa.
Casaram no mês de maio e foram ao México em lua-de-mel. Pouco depois estavam de volta, tristes e cabisbaixos. O casamento não se consumara. Foram ao psicólogo, ao psiquiatra e à benzedeira tentando entender o que acontecera. Escreveram ao bispo. Nada adiantou. Então os cachorros da rua começaram a latir na sua passagem, cada vez mais alto e mais forte ressoando no fundo de seus ouvidos até tarde da noite, já bem depois da hora em que os cachorros se recolhiam para dormir em suas casinhas. Aí, tomaram a decisão e foram a um veterinário que os encaminhou de volta ao psiquiatra que achou o caso perfeito para uma benzedura. A benzedeira não teve dúvidas em recomendar que voltassem ao México para começar tudo de novo. E assim o fizeram.
Em Chihuahua, tomaram a decisão de abrir mão da combinação pré-nupcial e compraram um cachorro bem fofo, pequeno, mas bem fofo que levaram para casa numa cestinha de vime forrada com trapos vermelhos. Desesperados, porém, descobriram que os latidos do fofo eram desprovidos de som, e mais ainda, que os latidos mudos ressoavam forte no interior de suas almas, desencadeando rugidos, berros e urros de inúmeros outros animais cuja presença eles, até então, desconheciam completamente. Aquilo era pura loucura, eles sabiam, mas, por não acharem outra saída resolveram encarar o problema como uma extensão exótica da sua triste realidade.
Então, pela primeira vez, olharam-se com a cumplicidade de dois loucos e decidiram, de comum acordo, soltar os bichos que mantinham aprisionados em suas desavisadas almas. Primeiro saiu um gatinho, depois um hamster, depois um buldogue, até que um tigre jogou-se contra a porta fazendo com que perdessem completamente o controle, deixando que a bicharada escapasse em massa, em meio a uma balbúrdia nunca antes vista pelas suas mansas bem comportadas almas.
Desde então, os latidos noturnos sumiram completamente. Em seu lugar, um silêncio profundo, carregado de intenso mistério os faz permanecer enlaçados num sexo doido e interminável, enquanto os animais passeiam ao seu redor, cheirando, lambendo e fuçando o monte de roupas sujas que vai se acumulando por toda casa.
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Ney Mário Brasil do Amaral é médico, empresário e escritor. É autor do livro CARTAS A UMA MULHER CARENTE.
