por Marcelo Silveira
Em algum momento do segundo grau, as turmas do segundo ano do turno da manhã do colégio onde eu estudava resolveram se manifestar contra a expulsão de um colega, se vestindo de preto. Dois anos tinham se passado desde a passeata "Fora-Collor", o sentimento ainda era de que a juventude podia mudar o mundo. Ou seja, reintegrar um aluno seria uma tarefa fácil para aqueles que derrubaram um presidente. Obviamente, acostumado a rebeliões estudantis, o coordenador do colégio achou graça do movimento e propôs que todos os alunos comparecessem vestidos de rosa no dia seguinte, prometendo um ponto na média final caso a adesão fosse integral. A fofoca chegou até os integrantes da solitária turma do turno da tarde, que exigiu que a mesma tarefa lhes fosse oferecida. Nem sabíamos quem era o aluno expulso, mas por um ponto em nossos boletins o esforço seria válido. No dia seguinte, com a ajuda das meninas, que levaram camisas extras para aqueles que não possuíam uma peça de roupa daquela cor em seus armários, todos os alunos, dos dois turnos, fizeram daquela quinta-feira a mais colorida da história do colégio. Foi um dia alegre, de risos, um dia para ser lembrado. Foi a minha primeira Quinta Rosa.
Mais de dez anos depois, minha ex-mulher chegou em casa dizendo que um amigo dela estava contratando um desenvolvedor para o site Bolsa de Mulher. Desempregado, aceitei a oportunidade sem pensar duas vezes, e sem imaginar que um momento vivido tantos anos antes poderia se repetir. Desde o primeiro dia, pude perceber que tudo era diferente em relação às outras empresas onde trabalhei. O ambiente era mais descontraído, mais relaxado, as pessoas pareciam sempre felizes, fazendo seu trabalho com amor, e, desde o papo informal entre funcionários, passando pelas matérias e chegando ao fórum, tudo tinha um ar rosa. Dia após dia, eu via tudo tender sempre para o lado mais feminino, mais otimista, sensível, e tudo ao meu redor foi se tornando mais rosa. Bolsas, garrafas térmicas, mídia kits, fundo de tela dos computadores, capa dos notebooks, tudo era motivo para colorir o ambiente.
E foi então que, um belo dia, veio a ordem: "Amanhã, todos devem vir de rosa!". Rosa? E não é que eu tinha mesmo uma camisa rosa guardada? Para minha surpresa, minha camisa foi reprovada em todos os departamentos da empresa por não ser rosa, e sim, goiaba. Mas tudo bem, eu sabia que teria a chance de tentar novamente. Veio a segunda Quinta Rosa, e lá fui eu procurar uma peça de roupa rosa para comprar nas lojas de Ipanema. Para garantir o sucesso da missão, fui direto nas etiquetas indicativa das cores, e encontrei uma camisa "Rosa Rubor". Todo feliz, vesti minha nova aquisição. Mas, para minha surpresa, descobri que havia falhado novamente. Segundo minhas companheiras de trabalho, a cor da vestimenta era salmão. Eu não podia acreditar! Achava que dessa vez tinha acertado.
Fomos então almoçar. Todos de rosa, e eu de salmão. Todo mundo na rua olhava para aquele bando de malucos andando juntos na rua de rosa (e o patinho feio aqui de salmão), e sorriam, porque o grupo transbordava de alegria. E eu entendi que o movimento não está na cor da sua blusa, ou da garrafa térmica, nem no fundo de tela do computador. Tampouco no mídia kit, mas sim na forma de ver a vida, encarar os desafios, e conviver com as pessoas ao seu redor. Nesse dia, eu voltei dez anos no tempo, e relembrei daquela feliz primeira Quinta Rosa. Na verdade, não lembro ao certo se aquilo aconteceu em uma quinta-feira, mas fica bem mais legal contando assim, não é?