por Beth Valentim
Certa vez, fiquei na porta da cozinha vendo minha mãe bater claras em neve para fazer suspiros. Que coisa! Ficavam cada vez maiores, subiam pelo prato afora e a cor branca ia se intensificando. Meus olhos de menina saltavam de espanto e minha mãe, claro, fingia que não via...
Foi então que tive uma idéia e não consegui estancar meus pensamentos delirantes de menina. Fui até ao quarto e peguei meu conjunto de vidrinhos de anilina. Tinha de todas as cores, cada uma linda! Voltei para cozinha segurando o potinho com anilina cor-de-rosa e falei:
- Mãe, posso fazer uma mágica?
- Mágica? - Respondeu surpresa.
- Sim, uma coisa diferente com o seus suspiros.
Ela sorriu e continuou a batida forte do garfo contra as claras que cresciam sem parar.
Então, insisti:
- Mãe lembra quando você ontem à noite chorou deitada em sua cama?
Ela me olhou espantada e retrucou:
- Eu? Era resfriado, filha.
- Não era não, mãe. Estava chorando de tristeza, porque não conseguiu dinheiro para comprar aquele vestido da loja da cidade que tanto queria.
Mamãe sentou no banco da cozinha e encostou o prato no colo. Suas lágrimas começaram a rolar pelo rosto. Peguei o prato com cuidado e comecei a despejar gotas de anilina. Fui mexendo bem devagar até que a mistura ficasse rosa. Cor-de-rosa. Ela olhava o que fazia e, de repente, parou de chorar. Segurei sua mão e puxei-a para perto de mim.
- Vem, mãe. Vamos fazer suspiros cor-de-rosa. Vão ficar lindos, muito mais do que aqueles que deu ontem à noite enquanto chorava...
Mamãe sentou pertinho de mim e começamos a montar os suspiros no tabuleiro. Quando ficaram prontos, sentamos no chão da varanda e começamos a comer, um a um. A cada suspiro cor-de-rosa que engolíamos falávamos uma para outra:
- Esse é aquele vestido que não consegui comprar.
- Agora esse outro é aquele boneca que Papai Noel esqueceu em sua fábrica e não trouxe para mim na noite de Natal.
E assim fomos comemos todos, até ficar um só. Morríamos de rir uma da outra. Quando restava o último, nos olhamos firmes e dividimos ao meio e falamos :
- Que jamais fiquemos tristes porque não conseguimos ter algo que gostaríamos, que apenas passemos a lutar até conseguir encontrar e realizar nossos sonhos e jamais desistir...
Hoje, quando fico triste porque não pude ter algo que queria muito, lembro desse dia. Vou à cozinha e faço suspiros cor-de-rosa, como todos, um a um, até que terminem minhas lágrimas e lembre que, no passado, ainda tão pequena, fui criativa e consegui livrar minha mãe de sua tristeza em achar que não podia conseguir o que desejava.
Em vez de suspirar em branco, faço em cor-de-rosa e recupero a força de mulher que consegue deixar a angústia para trás e construir o futuro... rosa, todo rosa.