• Os bons vinhos do vizinho

    por Sonia Melier em 31/03/2005 | 21:00

    O Uruguai promove seus vinhos dia 4 de abril, uma segunda-feira, no Sheraton do Rio, com uma apresentação de bodegas importantes, seguida de degustação. Seus vinhos hoje têm tudo para igualar-se aos da Califórnia, Chile, Argentina, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. Os produtores uruguaios rapidamente encontraram na uva francesa Tannat um veio para vinhos potentes, de grande qualidade. Um achado equivalente ao da Malbec pelos argentinos, da Shiraz pelos australianos e da Pinot Noir e Sauvignon Blanc pelos neozelandeses. Vinhos de grande qualidade que não perderam a personalidade ao se adaptaram a novas terras.

    Mas além de tornarem-se especialistas nessa uva, os uruguaios vêm modernizando o setor. A partir de 1990, por exemplo, aparecem os tanques de aço inoxidável. O país produz em média um milhão de hl de vinhos anualmente, exporta algo em torno de 4 milhões de litros de vinhos anuais, sendo que praticamente a metade é comprada pelo Brasil, seu principal cliente.

    O uruguaio está hoje entre os 10 maiores consumidores mundiais de vinho, com 33,5 litros anuais per capita - todo mundo consumindo principalmente os seus fortes Tannats.

    Lã e carne bovina ainda dominam a economia do país. Só a partir dos anos 80 é que a vinicultura aparece como fonte de divisas de importância.
    Tem 9 mil hectares plantados em solo argiloso e calcário, sob um clima temperado e úmido. Apesar de muita chuva, durante a colheita, entre fevereiro e março, há estiagem.

    A cepa Tannat no Uruguai é um acaso. O imigrante Pascual Harriague, um basco francês, conseguiu mudas da uva de um conterrâneo seu, na Argentina, por volta de 1870. O cultivo da Tannat rapidamente se espalhou que a cepa acabou conhecida pelo nome de Harriague.

    Mas lá se plantam também outras variedades, como a Sauvignon Blanc, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Riesling, Gewürztraminer e até a Viognier. Uma outra especialidade de sua vinicultura é a Vidiella, uma forma de Folle Noire.

    O acontecimento é promovido pelo INAVI - Instituto Nacional de Vitivinicultura do Uruguay – e por Bodegas de Uruguay.

    As seguintes vinícolas estarão apresentando seus vinhos: Ariano Hermanos, Bodega Bouza, Bruzzone Y Sciutto, Carlos Pizzorno, Castel Pujol-Bodegas Carrau, Castillo Viejo, Dante Irurtia, De Lucca, Los Cerros de San Juan, Juan Toscanini e Hijos, Juanico, Montes Toscanini, Nelson H. Stagnari e Pisano.

    Essa será a quinta apresentação de vinhos uruguaios no país e acontecerá apenas no 4 de abril, das 15 às 21 horas, no Sheraton Leblon, São Gávea (Av. Niemeyer, 121).

    Agora, se você for a essa degustação, só saia de casa depois de bem alimentada, com o estômago devidamente forrado. E vá de carona, arrume um motorista que seja abstêmio. Ou vá de táxi, ônibus. Mas não dirija – depois da degustação, claro.

    Numa prova profissional, temos cuspidores à disposição – aqueles baldes especiais para deitarmos fora o vinho que está em nossa boca.

    Mas na maioria desses eventos, não diretamente dirigidos a degustadores profissionais, é improvável que disponhamos desses cuspidores. Temos que beber o vinho mesmo.

    Tomemos o caso da degustação dos vinhos uruguaios. Serão apresentados vinhos de 15 vinícolas. Caso você consiga o improvável, ou seja, provar apenas um vinho de cada bodega, consumirá 15 taças, com pequenas porções de vinho, que modestamente consideramos equivalentes a 8 taças regulares. É muito vinho colocado em seu sistema num espaço de mais ou menos duas horas. É muito pouco tempo. Logo, não dirija. E beba água após cada taça de vinho. Isso vai hidratá-la, além de evitar que os sabores da primeira taça se confundam com os da segunda – e assim por diante.

    Cheire o vinho, em primeiro lugar. Coloque a taça no balcão, gire-a gentilmente (o balcão estará servindo de apoio mais seguro; você pode até fazer isso segurando a taça, mas se não tiver prática, arrisca salpicar de vinho os seus vizinhos). Isso ajudará a que os aromas naturais do vinho sejam liberados. Aproxime a taça de seu nariz e dê uma boa inalada.

    Você gosta de vinhos, está ali para conhecer novos rótulos, novas uvas, novos blends. Não precisa se preocupar com as palavras para descrever os aromas percebidos por essa inalada. Isso é coisa para os críticos de vinhos, que têm um vocabulário todo especial, muitas vezes lotado de pernosticismos intraduzíveis ou ridículos. Apenas force um pouco a sua memória: você pode perceber desde aromas de chocolate, baunilha, de grama, de frutas, de flores, de ervas, especiarias, de leite, manteiga e até mesmo de suor, papelão mofado, xixi de gato, óleo diesel. Enfim, quanto mais aromas você detectar, melhor o vinho perceber. Nesses casos, os críticos chamam o vinho de complexo. Ele é mais rico, tem mais qualidades.

    O vinho talvez seja a única bebida a proporcionar tanto prazeres intelectuais quanto sensoriais. Deixe os gostos intelectuais com os esnobes, por enquanto, e se entregue aos seus sentidos, treine-os.

    Bom, você já deu aquela aspirada e percebeu um punhado de aromas. Já pode provar? Não, ainda não. Antes, coloque a taça de volta no balcão e agite-a novamente. Mais ar fará contato com a bebida e isso permitirá que você examine melhor a sua cor, sua transparência e clareza.

    Os vinhos não devem apresentar-se enevoados. Devemos poder ver até o outro lado da taça. Em alguns deles, você notará algumas partículas, sedimentos naturais de um vinho que não foi filtrado, pois o produtor procurou não retirar elementos naturais da bebida. Normalmente, esses sedimentos não representam problemas. Para melhor examinar a sua cor (repare na variação de cores, do centro da taça para a borda), coloque a taça contra um guardanapo imaculadamente branco, evitando que outras cores (do balcão, das luzes etc.) alterem a do vinho.

    No caso da especialidade uruguaia, vinhos com a uva Tannat, repare que rubro profundo, quase negro. Uma beleza.

    Agora, sim, está na hora de provar um pouco do vinho. Faça a bebida girar em sua boca, praticamente bochechando. Os melhores vinhos vão liberar diferentes sabores. Numa segunda provada, você poderá descobrir mais detalhes, como adstringência, acidez, presença maior ou menor de açúcar e álcool. Fique apenas no bocejo. Vai pegar muito mal se você gargarejar.

    Para encerrar, não tema em fazer perguntas. Os produtores, os representantes das vinícolas estão ali preparadíssimos para tirar quaisquer dúvidas. E farão isso com imenso prazer.

    Depois, chame o motorista e volte pra casa, com memória ainda cheia dos sabores, aromas e cores que uma simples taça pode oferecer. O vinho é isso: um calidoscópio de prazeres numa só garrafa. Nenhuma outra bebida se compara. Aquela ida a uma degustação, que você estava pensando ser uma chatice vai se provar mais animada do que um parque de diversões.

    Se quiser maiores informações sobre a apresentação dos vinhos uruguaios, fale com a Aline, da Cristina Neves Comunicação & Eventos: (11) 5092-3247/48 ou pelo aline@cristinaneves.com.br

    Eu não deixaria de conhecer os bons vinhos do nosso vizinho.

    Se tiver mais perguntas sobre degustação de vinhos, clique para o Bolsa de Mulher ou para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br

    A taça da alegria

    por Sonia Melier em 24/03/2005 | 21:00

    Os primeiros brasileiros a tomar vinho feito de uvas fermentadas foram dois tupiniquins, em 1500, nessa mesma época de Páscoa. Afonso Lopes, um dos pilotos da esquadra de Cabral trouxe dois índios a bordo da nau capitânia no dia 30 de abril. Ofereceram a eles pão, peixe cozido, doces, mel, figos secos. Não quiseram comer nada. Por fim, diz Pero Vaz de Caminha, “trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram na boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais”.

    Explica Carlos Cabral no seu imperdível “Presença do Vinho no Brasil” (Editora Cultura, ISBN 85.293-0070-X; o livro começou a ser distribuído para as livrarias em março) que a favor dos indígenas, que recusaram o vinho, “podemos argumentar que a bebida oferecida não tinha a elegância de aromas e paladar que encontramos nos vinhos de hoje. Até porque, após uma viagem de 42 dias no Atlântico, o nobre vinho alentejano tinha passado todas as horas do dia e da noite sacolejando vigorosamente e, por melhor qualidade que tivesse, foi um vinho judiado o tempo todo”.

    É que os tupiniquins tinham seu próprio vinho, o cauim, fermentado feito de mandioca que tomavam apenas em rituais, esclarece Carlos Cabral. Diz o brilhante enófilo e historiador que o vinho de uva e o trigo para a missa faziam parte da logística das primeiras viagens dos colonizadores.
    Pois o vinho foi aos poucos entrando na vida do brasileiro e hoje já os estamos produzindo com grande qualidade e até com mais resveratrol do que os chilenos, argentinos e portugueses.

    É que os vinhos gaúchos contem uma substância, o resveratrol, em maior quantidade que a dos três concorrentes citados acima, conforme confirmam as pesquisas dos cientistas do Departamento de Tecnologia e Ciência da Universidade de Santa Maria (RS).

    O resveratrol é considerado um poderosíssimo antioxidante, peça fundamental no combate a uma das maiores causas de mortalidade no Ocidente: as doenças cardíacas.

    Numa outra ponta, o farmacologista carioca Roberto Soares de Moura, 68, trabalha há cinco anos na depuração de um extrato da casca da uva que predomina nos parreirais brasileiros, a vitis labrusca. Esse extrato será em mais uns dois anos uma senhora arma contra a hipertensão.

    Por isso, nesses tempos de Páscoa, vamos abrir nossas garrafas e celebrar. A teimosia do vinho no Brasil, e sua importância em nossas mesas. Sim, pois o vinho, até mesmo com base em rituais religiosos, é presença obrigatória.

    E o teste? Claro que não esqueci do teste. Você respondeu mesmo as 20 questões formuladas pelos médicos do Hospital Universitário Johns Hopkins? Pois leia essa coluna até o fim: a resposta estará lá. Mas continuemos, que a Páscoa tem preferência.

    A Bíblia tal como hoje a conhecemos tem como base textos em grego, onde a palavra “oinos” só é utilizada para significar vinho fermentado - ou seja, com álcool.

    Sabemos que a Páscoa, tal como uma variedade de celebrações cristãs, deriva diretamente de ritos e costumes judaicos, que, por sua vez, se originaram lá nos primórdios do homem, quando apenas se adorava o deus sol, a irmã lua, os raios e os trovões e se festejava, por exemplo, a chegada da primavera. A Páscoa é uma lembrança daqueles tempos.

    A Santa Ceia, realizada na primavera, distava apenas seis meses da colheita da uva. Não se conheciam técnicas de conservação então. Logo, seria impossível que tomassem apenas suco de uva: ele já teria virado vinagre. Ou, mais provável, teria fermentado e virado vinho. E os textos originais a respeito só se referem a “oinos”.

    Jesus e discípulos fizeram uma ceia dentro da tradição da Páscoa judaica, que comemora a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, dois mil anos antes do nascimento de Cristo. E é da tradição judaica que se tome 4 e apenas 4 taças de vinho, cada uma com um significado preciso.

    A primeira é a taça da santificação, a segunda, a do julgamento, a terceira é a da redenção e a quarta, a da louvação ou da alegria. É muito provável que Jesus tenha dito (Mateus, 26:28) “Este é meu sangue… derramado em benefício de muitos… para que tenham perdoados seus pecados…” na terceira taça, a da redenção.

    Quanto ao vinho sacramental, o chamado “vinho de missa”: é um vinho como outro qualquer, com álcool, cuja origem e graduação vão depender da supervisão do padre ou do superior da ordem religiosa. Não existe também qualquer restrição quanto ao estilo, se branco ou tinto, embora esse último tenha a preferência por melhor lembrar o sangue de Cristo.

    Na frota de Cabral se rezava missa todos os dias. Tinha que ter vinho. O Brasil foi colonizado por católicos fervorosos. Para isso era preciso ter vinho sempre. E assim a bebida foi sendo implantada na terra dos tupiniquins.
    Peixes e Chocolates. A Páscoa é tempo de opostos: peixes, normalmente salgados, como o bacalhau seco que herdamos dos portugueses; e chocolates. Sal em demasia e doce além da conta não são lá muito fáceis de combinar com vinhos.

    Não sei bem porque aqui na Semana Santa consumimos mais peixes, o bacalhau em particular, do que carnes. Explico: o católico passa a Quaresma fazendo jejum de carne, substituída por aves e peixes. Logo, seriam aceitáveis pratos de carnes vermelhas. Talvez, a forte herança portuguesa, com seus deliciosos pratos de bacalhau, tenha pesado mais.

    E quais os vinhos que vão melhor com peixes e chocolates? O prato tradicional aqui, deliciosa herança portuguesa, é o bacalhau, que, dependendo de sua receita, admite tanto os brancos quanto os tintos.

    Aqui, preferimos o bacalhau mais salgado e seco, com muito azeite, temperos, sabores fortes. O resultado é que, nesse caso, a melhor escolha é a de tintos. Se apenas os temperos forem dominantes, mas o sal usado com parcimônia, podem ser tintos jovens, com bons taninos. Muito salgado, devemos escolher um tinto leve, frutado, com taninos ao longe. Pode ser um de Bordeaux, de Beaujolais, os italianos Valpolicella e Dolcetto, um espanhol de Rioja ou um Pinot Noir da Califórnia. Também pode ser um Cabernet Sauvignon da Serra Gaúcha – um Salton, um Baron de Lantier, um Dal Pizzol, um Miolo. Oferecemos boas opções a preços bem competitivos.

    Se em vez do bacalhau seco (cujos preços nem o ministro Antônio Palocci consegue baixar), você preferir um peixe fresco ou frutos do mar, é quase certo que resultarão em pratos com uma acidez ligeiramente mais evidente. Nesse caso, experimente vinhos com a uva Sauvignon Blanc: os franceses, chilenos e neozelandeses oferecem ótimas opções.

    Já com o chocolate a coisa complica. Seu sabor é muito forte, dominante. E geralmente apenas vinhos igualmente poderosos podem competir. Tente com um bom Syrah, um doce como o Tokaj Azsú, um Banyuls ou um Porto Tawny de 10 anos, que prefiro.

    Muita gente gosta de chocolate com Cabernet Sauvignon, como os da Califórnia. Não estou nesse time. Os vinhos tintos com forte presença de taninos, como os grandes de Bordeaux, mesmo os jovens, não suportam o sabor do chocolate, nem mesmo os doces de Sauternes e de Montbazillac.

    Mas já o Banyuls é considerado como o tradicional companheiro do chocolate. É um tinto doce natural, dos Pirineus franceses.

    Se o chocolate não for amargo ou apenas moderadamente amargo você pode contar também com tintos leves com poucos taninos, como um Beaujolais ou um Rioja. Ou, com um complemento doce, além do Porto: um Sherry, um Madeira ou um Marsala.

    Assim, na ceia de Páscoa, vamos confirmar a presença do vinho em nossas mesas. O cauim, afinal, só era usado em cerimônias como as de antropofagia.

    Resposta do Teste.

    Segundo o Departamento de Programas para a Saúde do Hospital Johns Hopkins, dos Estados Unidos, que formulou as 20 perguntas contidas na coluna passada, quem respondeu 3 de quaisquer das questões com um SIM tem um padrão de beber negativo e pode ser considerado alcoólico ou dependente de álcool. Deve logo procurar um profissional de saúde.

    Se quiser mais dicas sobre vinhos e comidas é só ligar para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br.

    E agora vamos beber a taça da louvação, a taça da alegria. Feliz Páscoa!

    Além dos rótulos

    por Sonia Melier em 10/03/2005 | 21:00

    O que esperamos de um rótulo de vinho? Em primeiríssimo lugar, que ele nos diga o que existe dentro da garrafa. Contudo, muitas vezes eles não cumprem essa obrigação e, ao contrário, despertam gostos sinistros no público. O que dizer de rótulos com a foto do cruel ditador soviético Josef Stalin? Ou de Hitler, de Lênin, de Mão Zedong, de Guevara e Fidel Castro? Rótulos que procuram vender a garrafa e não o vinho. Transformam o produto numa piada de tremendo mau gosto, forçando algum tipo de propaganda adicional, já que a qualidade do vinho certamente não vai ajudar.

    Veja o caso das nossas cachaças, que levam nome indicativos de machismo (água-de-briga, água-que-passarinho-não-bebe, brasa) ou de uma falta dele (amansa corno etc.), entre dezenas de alusões. A maioria delas, porém, não dá para passar do segundo gole.

    Há pouco tempo, em 2003, as relações entre a Alemanha e a Itália ficaram arranhadas porque o produtor Alessandro Lunardelli torna seus rótulos apelações do terror político: fotos de Hitler com a triste saudação nazista, ou opcionalmente, fotos de “heróis” nazistas, como Goering e Rommel, além do ditador italiano Benito Mussolini.

    A venda desses vinhos é permitida na Itália, mas o governo alemão protestou contra a comercialização dos mesmos através da Internet. Na Alemanha, são proibidos, pois o governo veta qualquer referência gráfica ao nazismo.

    Lunardelli criou em 1995 uma coleção, “série histórica”, eufemismo para valorizar uma idéia grosseira, que no fundo mantém viva a fama de genocidas. No caso do rótulo com Hitler, só podemos concluir que se trata de propaganda do nacional socialismo: o ditador aparece com o braço direito estendido na saudação nazista. Numa legenda da foto, as palavras de ordem do III Reich: “Ein Volk, Ein Reich, Ein Fuehrer” (um povo, um império, um líder). Lunardelli talvez não venda mais pela internet, mas continua faturando o genocído.

    O caso dos vinhos com Stalin é bem mais recente, aconteceu agorinha. A histórica vinícola Massandra, da Ucrânia, resolveu comemorar a Conferência de Yalta, realizada num castelo bem próximo da vinícola, na Criméia, há 60 anos. Nessa conferência, os líderes mundiais de então, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt, o Primeiro Ministro Winston Churchill e o ditador Stalin retalharam geopoliticamente a Europa Ocidental, o que foi efetivado ao término da II Guerra. Os três líderes pousaram para uma foto, hoje utilizada como referência obrigatória da conferência: aparecem os três sentados no tal castelo, olhando para a câmera. Pois foi essa foto que a vinícola utilizou. Uma atitude talvez bem intencionada, mas que acabou em desastre.

    Os três líderes estão no rótulo de um vinho ao estilo de Jerez e em outro à moda de um Porto.

    Só que quando esses dois vinhos chegaram a Winnipeg, Canadá, a comunidade de ucranianos que habita a região protestou. Vive no Canadá forçada por aquele acordo em Yalta, que levou centenas de milhares de europeus orientais a viver em países controlados pelo antigo bloco soviético - e onde muitos foram assassinados.

    “Não quero que Stalin seja esquecido, mas lembrado exatamente por aquilo que era: um genocida assassino”, declarou Lubomyr Luciuk, dirigente da Associação Canadense-Ucraniana de Liberdades Civis.

    Cerca de 3% dos canadenses, mais de um milhão de pessoas, são descendentes de ucranianos. Depois da guerra, aproximadamente 40 mil deles, refugiados políticos, abrigaram-se no Canadá.

    Evidentemente, os vinhos foram retirados da prateleira. Serão devolvidos ao importador ou receberão rótulos novos. Aqui na América do Sul, já tivemos um vinho com o ditador chileno Pinochet no rótulo. Um caso de puxa-saquismo descarado, bastante comum nos tempos de ditadura.
    Sim, temos essa linha de rótulos, que tenta vender através do sinistro, através da bajulação ou da crítica política, caso do vinho com o rótulo da atual Primeiro Ministro italiano Silvio Berlusconi. Que, claro, foi retirado das prateleiras. Mas fez lá o seu barulho.

    O que começa bem. Pois é, nem sempre acaba bem. Em 1924, o Barão Philippe de Rothschild comissionou o pintor cubista Jean Carlu para desenhar o rótulo do seu Château Mouton-Rothschild, daquele ano, o primeiro vinho a ser engarrafado na própria vinícola (até então, eram embarricados e engarrafados pelos negociantes, na maioria das vezes em Londres).

    A partir de 1945, o Barão transformou o evento de 1924 numa prática anual, que não só deu prestígio ao seu vinho como facilitou a vida de colecionadores, que podem comprar rótulos de uma determinada safra e substituir pelos velhos, rasgados etc. do mesmo ano.

    Desde então, artistas de grande prestígio vêm criando os rótulos do Mouton. Entre eles, temos Miró, Chagall, Braque, Picasso, Warhol, Bacon, Balthus. Para a safra de 2002, agora no mercado, o rótulo foi criado pelo russo (emigrado para os Estados Unidos) Ilya Kabakov.

    A invenção do Barão é até hoje imitada em todo o mundo. Mas nunca conseguiu os resultados conseguidos pelo Mouton. Em 2002, o grande produtor português Herdade do Esporão teve que retirar do mercado 300 mil garrafas do seu Esporão Reserva, recusado pelos americanos, pois o desenho do rótulo mostrava um sultão ou califa barbado e de turbante extraordinariamente parecido com Osama bin Laden. O pior é que esse vinho chegou a Nova York um dia depois da catástrofe de 11 de setembro. O rótulo foi substituído pela imagem de um rei e rainha medievais bebendo vinho.

    Temos vinhos que buscam homenagear personalidades bem mais simpáticas e que até hoje concentram admiradores.

    O Marilyn Merlot explora a foto em que a atriz, Marilyn Monroe, aparece nua no célebre calendário – nudez disfarçada por borbulhas de vinho.
    Os vinhos da Marilyn existem desde 1985, transformaram-se numa curiosidade e vendem muito bem. São licenciados pelos representantes legais da atriz.

    Esses rótulos prestam tributo a artistas mortos. E são bem comentados pela crítica de vinhos. A coleção de vinhos que levam a imagem da lenda do rock Elvis Presley, por exemplo, adotam nomes dos sucessos do interprete: King Cab (Rei Cabernet), Jailhouse Red (tinto), Blue Suede Chadonnay – com vendas extraordinárias nos Estados Unidos.

    O líder do famoso grupo The Grateful Dead, Jerry Garcia, é lembrado não por uma marca especial de maconha, mas por uma coleção de vinhos - um merlot, um chardonnay e um cabernet – muito elogiada.

    Temos vinhos oportunistas. A mesma vinícola que produziu o vinho do Pinochet, na última Copa lançou um saudando o astro argentino Maradona, tentando arrebatar torcedores portenhos. Claro que esse vinho durou pouco tempo. O oportunismo tem pernas curtas.

    O mundo dos vinhos é um grande chamariz. E o que vemos nos últimos tempos e uma quantidade cada vez maior de celebridades dedicarem-se à produção de vinhos. Temos gente como o Francis Ford Coppola, do Poderoso Chefão, até Bob Dylan, o veterano cantor pop Sir Cliff Richard, o ator Simon Neill (do Parque Jurássico, Piano e Caçada ao Outubro Vermelho), o cantor Sting, com uma rica propriedade na Toscana, o ator francês Gerard Depardieu com vinícolas espalhadas pela França, Itália e Argélia.

    Nesse ponto, a história fica um pouco diferente. Essas celebridades não querem aparecer nos rótulos, apenas fazer bons vinhos.

    Você pode até encomendar vinhos com rótulos personalizados. Por exemplo: eu posso criar um “Sonia Melier Noir”, naturalmente um Pinot Noir com a minha assinatura e a vinheta que aparece aí em cima. Claro que o vinho vem de um vinícola, eu entro apenas com a minha figura, nome e o farol que farei para amigos e amigas. Os rótulos também satisfazem vaidades.

    O que você acha de Lula, Ronaldinho, Danielle, Gisele, Chico Buarque em rótulos de vinhos brasileiros? Venderiam mais ou menos? Acho que fariam sucesso por alguns momentos e depois sumiriam do mapa, num ciclo de vida que corre em paralelo com o das celebridades: são apenas 15 minutos e acabou.

    O desenho de Kabakov, para o Mouton 2002 que mencionamos acima, tem o título de Okho, janela em russo. Através dessa janela, vemos uma miríade de asas, numa alegoria da mágica de um grande vinho. E é isso que os rótulos devem passar, a mágica, a alegria dos vinhos. E não esquecer de informar o que está dentro da garrafa.

    De qualquer modo, não deixe de dar a sua opinião e clique para o Bolsa ou para a Soninha, agora no soniamelier@terra.com.com.

    Andando sideways

    por Sonia Melier em 03/03/2005 | 21:00

    Sideways, além de prazer, está dando também algum trabalho. Miles e Jack ficam “sideways” e quem erra sou eu. Se você não entendeu o emprego de sideways na frase anterior, continue lendo. Sim, flagrei-me num erro. E, assim, devo um reparo e um pedido de desculpa aos leitores. Nos textos sobre o filme, traduzi “Sideways” mais ou menos como “a tomada de caminhos oblíquos”, pegar uma variante, cortar caminho. Por aí. O meu Oxford (The New Shorter Oxford, edição de 1993, segundo volume, página 2.855) diz que, como advérbio, significa “de um lado”, “apresentar o lado em vez da face, frente ou extremidade”, “em direção ao lado, obliquamente”, “inclinar para o lado”, “do lado (de um lugar)”. É usado também, coloquialmente, como um “intensificador”, “nos limites da tolerância de alguém”.

    Como adjetivo, quer dizer mover-se indiretamente, em direção “a um lado”. Exemplo: Ela me olhou de lado, de esguelha, de soslaio, de esconso, de través, obliquamente. Como temos um road-movie, com a história de Miles e Jack que saem buscando o melhor Pinot Noir pelo Vale de Santa Ynez, achei que Sideways pudesse ter uma relação direta com estrada, sair dela, pegar atalhos.

    Mas não tem

    O nome original da novela de Rex Picket, que originou o filme, era “Two Guys on Wine” (mais ou menos “Dois caras e o vinho”, ou “Dois amigos sobre o vinho”).

    Mas os produtores acharam que esse título soava mais como uma história de viagens do que uma comédia romântica na qual os dois amigos resolvem os problemas do passado. E o título mudou para Sideways.

    Que significa o quê, então? O próprio Picket, autor da novela, explica.
    “Simplesmente, é um termo britânico que significa bêbado”. Os ingleses perguntam: ‘Você ficou bêbado (sideways) ontem? ’

    O diretor Alexander Payne, co-autor do roteiro, com Jim Taylor, nunca usou o termo no filme, embora o nosso Miles (Paul Giamatti) volta meia ande de través, bem “sideways”.

    O termo pode ainda ser interpretado como uma referência à maneira pela qual as garrafas de vinho são normalmente guardadas, de lado ou horizontalmente, nunca em pé, de frente.

    Mas o diretor concorda que a expressão pode também implicar com o jeito displicente, relaxado, de andar de Miles e Jack (Thomas Haden Church). “Esses dois nunca estão andando firme para frente”, diz Pickett. Nesse caso, meu erro não foi assim tão monumental.

    A entrevista de Picket sobre sideways como bêbado pode ser lida no original, na Sacramento Bee:

    Miles roubou sua mãe?

    Mas meu erro não pára aqui. A leitora Helen Queiroz não está convencida que Miles tenha roubado sua mãe. Inclusive fez uma aposta com o marido. Ele pega um monte de dinheiro e o devolve depois à mãe. Diz Helen que não viu nenhum roubo, que não fica claro.

    E pede que eu julgue: Miles roubou ou não a mãe dele?

    Como a Helen apostou logo com o marido, não sou maluca de ser juíza dessa disputa. Você viu no que deu aquela outra em torno de qual das três deusas era a mais bela: Hera, Afrodite ou Palas. O juiz seria o próprio Zeus. O safado deixou a missão com o idiota do Páris.

    Sendo assim, reúno algumas referências de críticas de Sideways onde parece claro para seus autores que Miles realmente roubou sua mãe. Essas resenhas são assinadas por profissionais e veículos importantes, como o San Francisco Chronicle e o Slate.

    Faço uma breve referência à resenha no original, onde fica claro que ele roubou. E acrescento o seu endereço eletrônico. Vamos lá:

    1. “In Payne’s Oscar-nominated film “Sideways,” sad sack wine snob Miles Raymond revels in the joys of pinot noir. Miles can be a jerk - he steals from his mother and has anger issues. But people apparently trust his judgment in wine.”

    (February 11, 2005/Did ‘Sideways’ uncork wine revolution?/BY JOHN KEENAN/WORLD-HERALD STAFF WRITER).
    http://www.omaha.com/index.php?u_pg=57&u_sid=1333632

    2. “Two middle-aged losers, one a failed novelist who steals cash from his mother, the other a dim-bulb actor who cheats on his fiancée, head for the Santa Barbara hills, stop in at a cheap motel and chug wine in their underwear.”

    THE WINE PAIRING: DINNER AT SWAN + SIDEWAYS/By BEPPI CROSARIOL - WINE COLUMNIST/Friday, February 11, 2005 - Page R20

    3. “Maybe Hollywood? Some viewers will find the attraction of Madsen’s Maya to Miles a little mysterious. It’s not that Giamatti is totally unprepossessing, just that his intense I’m-a-loser vibe and, oh yes, his obvious alcoholism don’t exactly add up to the most promising boyfriend material.

    (We’ve also seen him steal money from his own mother, cut his toenails in close-up, and do a crossword puzzle while driving.) ”
    Sloshed in America/By David Edelstein/Posted Thursday, Oct. 21, 2004, at 4:06 PM PT
    http://slate.msn.com/id/2108515/

    4. “Written by Payne and Jim Taylor from a novel by Rex Pickett, “Sideways” mocks and loves the losers at its center. They are former college roommates on a romp through Central Coast wineries as a last hurrah before Jack marries a pretty rich woman who’s too good for him. Any woman would seem too good for Jack, a hopeless womanizer, or for Miles, who has financed the trip by swiping a roll of hundreds from his mother’s stash in her chest of drawers.”

    Two vintage losers tank up, take a giddy, wine-soaked road trip/Carla Meyer, Chronicle Movie Writer/Friday, October 29, 2004
    URL: http://sfgate.com/cgi-bin/article.cgi file=/c/a/2004/10/29/DDGP89HHNR1.DTL
    ©2004 San Francisco Chronicle

    5. “Within a few minutes of the opening credits, we see Miles make himself and Jack phenomenally late for their last vacation together as single guys, then steal money from his mother so he’ll be able to show his friend around in style. Jack, on the other hand, is cheerfully crude and, we soon learn, all to eager to have one last fling (or two, or three) before his wedding day. It’s easy to understand and forgive them, though, because the people who suffer most when Jack and Miles mess up are themselves.”

    The Bottom Line/Film reviews and related articles by Ealasaid A. Haas, freelance writer./November 01, 2004/Sideways/Originally written for The Milpitas Post

    http://www.ealasaid.com/writing/reviews/2004_11.html
    Posted by Ealasaid at 02:09 PM | Comments (0) | TrackB

    6. “Without mentioning specifics, the way Miles finances the trip comes immediately to mind. The final denouement of Miles’ character comes in the words of Maya in a letter that reveals an event that hold the key to Miles’ personality. It’s a subtle moment perfectly placed in one of this year’s best movies”.

    http://www.vidkraft.com/ffvp/topten2004.htm

    E os mil dólares? Agora, na minha primeira coluna sobre Sideways, falo que ele roubou mil dólares. Outro erro: não sei como eles foram parar lá. De onde tirei mil dólares? Não sei: não foi do filme ou de qualquer resenha. Meu subconsciente?

    O que Miles faz simplesmente é pegar uma grana da mãe para financiar a viagem que fará com Jack.

    Tá bom que estou devendo grana e não consigo acertar minhas contas. Mas não estou devendo nada em dólares. Ainda. Parece que estou um tanto sideways, não é?

    As leitoras também estão confusas sobre o roubo (ou não) de Miles? Pois escrevam aqui para o Bolsa ou para a Soninha, agora no soniamelier@terra.com.br.