• Cuiabá & Macbeth

    por Sonia Melier em 29/01/2004 | 21:00

    A coluna passada (”É isso?”), sobre álcool e broxidões ao mesmo tempo agradou e preocupou uma leitora de Cuiabá. Ela tem amizades importantes que se relacionam mal com as bebidas. E quer que falemos mais a respeito.

    Confesso que a coluna passada também me inquietou. Para ilustrar o assunto, citei Shakespeare. Utilizei uma referência famosa, bastante conhecida e que vinha a calhar com a matéria. A bebida…”Provoca o desejo, mas arruína a performance”. Só que citei Hamlet. Mas essa referência, que já apareceu em colunas anteriores, e corretamente, é de Macbeth (ato II, cena III). Leitoras, perdoem.

    A bebida alcoólica é um problema quando consumida em excesso. Aliás, todos os excessos representam problemas. Os refrigerantes, por exemplo, estão sob grande pressão nos Estados Unidos e na Inglaterra. Estão entre os possíveis responsáveis pela obesidade de crianças e jovens. A Coca-Cola inglesa já retirou sua publicidade das lanchonetes que servem em escolas.

    Quanto ao excesso de álcool, já sabemos o que pode causar - e a citada broxidão é o menor dos problemas. Na Rússia, onde na média se bebe três litros de vodka por semana, 1/3 das mortes por doenças cardiovasculares são atribuídas ao álcool. Quinhentas pessoas em 100 mil morrem em função direta do excesso alcoólico.

    O excesso mata ou inutiliza, “arruína a performance”, rouba-nos a potência, a vontade.

    A nossa cuiabana quer saber os malefícios da bebida a partir dos 30 anos. Não li nada especificamente relacionado a excessos a partir dessa faixa de idade. As pesquisas que tenho lido remetem sempre a faixas de idade: de 15 a 25, de 25 a 45, de 50 a 70 etc. Só recolhi uma referência que será comentada adiante.

    Depende muito de quando a pessoa começou a pisar um pouco mais no acelerador. Vale aqui a metáfora do cidadão pacato, que durante a semana, de segunda a sexta, anda sempre de metrô, mas quando chega sábado pega o carro e dá 150 km em plena via pública. Não adianta a pessoa dizer que é abstêmio todos os dias, menos um, quando compensa de modo destruidor os 6 dias de seca.

    Os excessos devem ser comentados e tratados, na verdade, por um especialista: um médico, um assistente social, um psicanalista. Ou mesmo pelo pessoal, sempre sério e eficiente, dos Alcoólicos Anônimos.

    Abstinência mata. Para que não fiquem dúvidas: o álcool em excesso vicia, é perigoso. Centenas de milhares de pessoas morrem todos os anos em razão de abusos. Ninguém deve beber e dirigir. Jovens, grávidas, pessoas sob medicamentos contendo contra-indicações e com problemas de domar o seu consumo não deveriam beber.

    Agora, o que as pessoas talvez ainda não saibam é que um drinque (para mulheres) ou dois (para homens) por dia é a dose perfeita para ajudar a prevenir ataques cardíacos e fazer com que possamos viver mais tempo.

    Epidemiologistas norte-americanos estimam que se amanhã toda população do seu país parasse de beber, de tomar qualquer gotícula de álcool, virasse abstêmia de dar inveja a religiosos fundamentalistas, cerca de 800 mil pessoas morreriam por ano de doenças cardíacas.

    O coração mata mais que cirrose, câncer, acidentes etc. O maior estudo sobre mortalidade, que pesquisou meio milhão de pessoas durante nove anos, descobriu que bebedores moderados, acima dos 30 anos, tinham 20% menos chances de morrer prematuramente do que abstêmios nessa faixa de idade. Olha ai uma referência ao grupo de 30 anos.

    Os benefícios do álcool vêm sendo demonstrados durante os últimos 20 anos. As autoridades inglesas da área de saúde pública afirmam que as pessoas que bebem muito pouco ou nada bebem formam um grupo com alto risco de doenças cardíacas. Essas pessoas, diz o governo inglês, “devem considerar a possibilidade de beber moderadamente, em benefício de sua saúde”.

    A Associação Americana do Coração informa que: “Se você bebe, faça-o com moderação…” e, em seguida informa que as pessoas que bebem moderadamente têm menos chances de sofrer do coração.

    As bebidas saudáveis caem em três categorias: água, sucos de fruta e o nosso velho álcool. Em 1997, a Organização Mundial de Saúde, da ONU, formalizou que um drinque por dia reduz o risco de doenças do coração e de infartos. A rica lista de componentes saudáveis do vinho e talvez da cerveja devem ter contribuído para a decisão da OMS.

    Essa mesma OMS concorda que a bebida alcoólica promove sociabilidade e solidariedade.

    Os americanos vão comemorar agora, 14 de fevereiro, o Dia de São Valentim, que lá é o padroeiro dos namorados. São Valentim é também o patrono do fígado, seu protetor. Aparentemente, essas duas propriedades do santo não combinam. Talvez possamos encontrar um significado no próprio Macbeth, onde aprendemos, entre outras leituras, que as aparências enganam. O que parecer ser bom pode ser ruim, ao final. Aquele Romeu de hoje pode virar um Macbeth amanhã. As bebidas alcoólicas podem ser boas ou ruins, dependendo de como são consumidas.

    Se você optar por algo radicalmente diferente de sucos, água ou bebidas alcoólicas, tente a poção das bruxas que pontificam no Macbeth. A receita pede sapo, filé de cobra, olho de salamandra, patinha de rã… Enfim, se quiser saber de todos os ingredientes é só ler a peça de Shakespeare ou clicar para o Bolsa ou para a Soninha no www.adegaebar.com.br.

    É isso?

    por Sonia Melier em 22/01/2004 | 21:00

    Os gregos, lá na antiguidade, proibiam o consumo de álcool nas festas de casamento, particularmente para os noivos. Os gregos já sabiam disso há mais de mil anos, mas ainda me perguntam sobre essa transmutação de garanhões em pintinhos quando os homens abusam de bebidas alcoólicas.

    Os homens ficam mais agressivos sexualmente, é verdade, mas seu desempenho na cama costuma ser lamentável. Shakespeare escreveu, no “Hamlet”, que a bebida promove casamento, nariz vermelho, sono e muita urina. “Provoca também o desejo, mas arruína a performance”. Isso sem contar com aquele bafo terrível que marca quem quer que beba demais. É um antitesão.

    Qualquer mulher sabe disso: no que diz respeito à virilidade, o álcool é o pior inimigo do homem. Beber demais acaba até por matar o desejo sexual. Os homens começam a dar mais atenção aos barmen.

    Os efeitos do álcool podem afetar, até de modo permanente, a libido dos homens, além de músculos, ossos e provocar alterações no corpo, como mamas crescidas, cinturas mais curvilíneas, queixo mais macio, barbas e cabelos mais ralos.

    E faz ainda pior: a rija lança do nobre cavaleiro pode ser reduzida ao tamanho de um palito. O lorde acaba virando lady.

    O álcool em excesso reduz os níveis da testosterona, o hormônio masculino, no sangue. E uma das muitas funções mais importantes da testosterona no homem é manter e regular o desejo sexual.

    Os níveis hormonais podem cair depois de uma noitada bebendo demais ou do consumo prolongado - ou seja, do alcoolismo. O álcool em excesso age nos testículos ora suprimindo diretamente as células que produzem e distribuem a testosterona, ora aumentando os níveis de alguns hormônios que inibem essas células. Até acontece de alguns homens conseguirem alguma coisa na cama mesmo depois de uma noitada de muitos drinques. Mas, pelas pesquisas que leio, a maioria deles não pode afirmar que tudo correu às mil maravilhas.

    A costumeira avaliação das mulheres depois de uma noitada com um parceiro destes pode ser resumida por um único comentário: “É isso?”

    Shakespeare é como sempre preciso. No mesmo Hamlet ele descreve: “…a bebida o motiva e o deserda; o agita e o imobiliza; em conclusão, o engana num sono e o abandona, deixando-lhe apenas uma mentira”. Em resumo: “É isso?”

    O excesso alcoólico reduz a testosterona necessária para uma ereção, além de interferir nos impulsos nervosos que a promovem. Numa ereção, impulsos do cérebro fazem com que pequenos músculos no pênis relaxem para permitir que o sangue circule rapidamente pelas duas câmeras ou cavernas que correm por toda a extensão do pênis, fazendo-o crescer. Esteticamente, ficam como aqueles pênis pequenos e desproporcionados de estátuas gregas.

    David Schwartz, um consultor da Associação Mundial da Impotência, ensina que o álcool age diretamente sobre o sistema nervoso. “É uma situação reversível e dura apenas enquanto os níveis de álcool são altos no sistema sangüíneo”.

    Quando o consumo excessivo de álcool se transforma num hábito, o homem pode prejudicar a sua virilidade permanentemente. “O álcool pode afetar tanto o sistema nervoso periférico quanto o central através dos efeitos tóxicos de um de seus subprodutos, o acetildeído, podendo levar à disfunção erétil e à impotência”, atesta o Dr. Michael Wilks, do Conselho Médico para o Alcoolismo, em Londres.

    O consumo alto por um período de cinco a dez anos pode resultar em inflamação dos nervos e eventualmente em impotência, que persiste mesmo que o homem depois se torne um abstêmio.

    Quanto a reduzir o tamanho da genitália masculina, isso parece ser resultado da pouca produção de células de esperma, que normalmente ocupam 95% do volume dos testículos. O tamanho fica reduzido, o que imediatamente prejudica a fertilidade, sem falar do desempenho.

    Um grupo da Universidade de Helsinki, Finlândia, verificou a produção de esperma cessava completamente em 1/5 dos homens que bebiam o equivalente a mais de 200 mililitros de álcool por dia (mais ou menos 14 colheres de sopa de álcool puro), por pelo menos um ano.

    Aqueles que bebem 1000 mililitros de álcool por semana (68 colheres de sopa) podem ter seus músculos reduzidos e enfraquecidos, o que é também conhecido por miopatia alcoólica. O nosso bebedor abusado terá problemas de movimento, cansará rapidamente, subirá escadas com tremenda dificuldade. Adeus peladas viris aos sábados - que, infelizmente, em boa parte das vezes servem apenas de pretexto para tremendas cervejadas entre amigos.

    Quanto ao desenvolvimento de mamas e cinturinhas, fazendo com que a gordura concentre-se no abdome (a chamada “barriga de cerveja”), o caso é que o álcool, como vimos, promove um senhor desequilíbrio hormonal. Homens e mulheres produzem testosterona e estrógeno. Os níveis de testosterona são mais altos nos homens. E os de estrogênio nas mulheres. O álcool em excesso aumenta a conversão da testosterona em estrogênio. Pois é: mais hormônio feminino no senhor varão.

    Outro fator é que algumas bebidas contêm substâncias relacionadas quimicamente ao estrógeno, originárias de plantas utilizadas em seu fabrico. Elas existem no Bourbon, na cerveja e no vinho.

    O lado bom dessa história é que os médicos e cientistas que se ocupam dessa matéria continuam mantendo a recomendação de que, se consumidas moderadamente, as bebidas alcoólicas podem ser até saudáveis.

    Agora mesmo descobriram que o resveratrol, uma substância química encontrada no vinho tinto, pode matar uma bactéria potencialmente fatal, a chlamydia pneumoniae, que promovem e agravam inflamações e ajudam a entupir artérias com depósitos de gordura. Mas esse vinho só será efetivamente saudável se consumido moderadamente.

    Se o Alfredão estiver dando mais atenção ao Martini do que a você, lembre a ele que sexo é bom mesmo quando homem e mulher comparecem ao encontro inteiraços. Com um parceiro só é até possível, mas não o que você desejava daquele encontro. Acorda, Alfredão.

    Se as amigas tiverem perguntas sobre bebidas alcoólicas e essa variação dos monólogos da vagina é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha no www.adegaebar.com.br.

    Dieta, álcool e bom senso

    por Sonia Melier em 15/01/2004 | 21:00

    - Vou fazer dieta, vou parar de fumar, vou parar de beber, vou largar o Alfredão…

    Paro por aqui com esses chavões de início de ano. A maioria dessas promessas dificilmente é cumprida.

    Mas o caso das dietas é o que mais me interessa, no momento. Muitas leitoras, particularmente aquelas que adotaram a dieta do Dr. Atkins, agora na moda, novamente, estão desanimadas, pois as primeiras duas semanas desse método de emagrecimento proíbem álcool terminantemente e um máximo de 20 gramas de carboidratos por dia.

    Muitas amigas acham que podem resolver o problema dos carboidratos (batata, arroz, algumas verduras etc.). Mas não poder tomar uma tacinha de vinho! Invariavelmente batem à minha porta pedindo sugestões (ou saídas).

    As bebidas alcoólicas são proibidas pelo método Atkins não porque sejam ricas em carboidratos. Uma taça de vinho, por exemplo, normalmente tem no máximo três gramas de carboidratos.

    A proibição existe porque ao bebermos uma bebida alcoólica podemos alterar os níveis de açúcar no sangue - o que pode aumentar nosso apetite, em particular por doces. Justo, o que não queremos numa dieta.

    Passadas essas primeiras duas semanas, o sistema Atkins permite que os níveis de consumo de carboidratos fiquem entre 25 e 50 gramas (dependendo do seu biótipo, peso e necessidades alimentares). A partir desse momento (e, na verdade, por toda a sua vida) e se você quiser reduzir peso ou manter medidas saudáveis precisa contar todos os carboidratos que consumir por dia. Inclusive os do vinho, mesmo que esses sejam pouquíssimos, insignificantes.

    Como dissemos, uma taça de vinho tem em média 80 calorias e no máximo três gramas de carboidratos. É muito, muito pouco. Na prática, não haverá carboidratos.

    Esses carboidratos não são originários do açúcar, pode ter certeza. Veja só como o vinho é feito. Tudo começa da uva, que contem açúcar. No momento em que o fermento entra em contato com esse açúcar, ele o converte em álcool: é o que acontece no processo de fermentação.

    A taça de um vinho com 12% de álcool por volume terá 90 calorias. E nenhum carboidrato.

    Uma uva tem 80% de água e 20% de açúcar. Quando o açúcar é fermentado durante o processo de produção do vinho, teremos álcool (quando o fermento converteu o açúcar), água e elementos de sabor.

    O tipo de álcool criado por esse fermento é o etanol ou etílico. É achado em todas as bebidas e o único apropriado para ser bebido.

    O álcool é uma das quatro fontes de energia do corpo humano (as outras três são os carboidratos, as gorduras e as proteínas). O fígado o converte num acetato, que o dicionário ensina ser qualquer sal ou éster do ácido acético, por sua vez utilizado pelo corpo humano como combustível. Nosso fígado produz sete calorias de energia por grama de álcool processado.

    Além da água e do álcool, o vinho tem glicerina, pectinas, ácidos, polifenóis e traços de elementos de sabor.

    A água oferece zero de calorias e zero de carboidratos. O álcool etílico tem zero de carboidratos e algumas calorias. Se quiser calcular, use essa fórmula:

    1,6 X taxa de álcool do vinho X volume da taça, normalmente 5 onças ou 148 ml. Assim, num vinho com 11% de álcool, teremos: 1,6 X 12 X 5 onças = 96 calorias.

    As glicerinas são elementos considerados por muitos como carboidratos. Utilizadas em doces para mantê-los macios, não são gorduras, proteínas ou mesmo carboidratos puros. São um tipo de álcool, um subproduto da gordura, mas que pouco aumentam o nível de açúcar do sangue.

    As pectinas são elementos viscosos que dão substância aos alimentos, como por exemplo, uma gelatina. É uma fibra vegetal.

    Os ácidos são componentes químicos com um pH de menos de sete.
    Os polifenóis, agentes responsáveis pela cor no vinho, são também poderosos antioxidantes.

    Portanto, apenas o álcool do vinho (e de outras bebidas) é que poderá afetar a sua dieta.

    Diferente da maioria dos alimentos, o álcool é processado pelo fígado. Você sabe que o calcanhar de Aquiles dos alcoólicos é o fígado - que é obrigado a manipular quantidades muito grandes de álcool.

    O que o fígado faz é consumir o álcool e convertê-lo em acetato. Somente uma pequena quantidade desse é transformado em gordura. Esse acetato entra em nosso sistema sangüíneo e é queimado como combustível.

    Não, ele não faz você engordar - pelo menos diretamente. Veja: ele está sendo utilizado completamente como fonte de energia.

    O acetato é um dos quatro grupos básicos de combustível ou de fontes de energia utilizados pelo nosso corpo para nos manter funcionando. Eles são:

    a) os carboidratos;

    b) o álcool, via acetato;

    c) a gordura;

    d) as proteínas.

    Os carboidratos são as fontes energéticas mais fáceis de utilizar pelo nosso corpo. Ele as prefere em vez das células de gordura. É por isso que pessoas dadas a comer carboidratos em profusão têm dificuldades imensas em perder peso. Eles vão ter preferência sobre as gorduras.

    Logo depois deles, o nosso corpo prefere os acetatos, caso não haja carboidratos para utilizar.

    Quando os carboidratos e acetato tiverem sido utilizados, nosso corpo vai procurar por mais fontes de energia e verifica os depósitos de gordura disponíveis. A gordura tem na verdade mais energia do que os carboidratos e acetatos, mas é mais difícil de processar. Precisa de mais oxigênio.

    As proteínas são uma boa fonte de energia, mas seu é mais utilizada na formação e manutenção de músculos e tecidos. Seu processamento não é rápido ou fácil e nosso corpo evita ao máximo em utilizá-lo.

    O que podemos concluir de toda essa cadeia é que todas as dietas vão tentar que utilizemos racionalmente nossas fontes normais de energia, principalmente as gorduras. Para que isso aconteça, elas nos orientam para um patamar onde a moderação é a principal característica.

    Sabemos que o vinho é um poderoso antioxidante, fator importante para prevenir doenças cardíacas. Tudo isso além de ser uma grande bebida.

    Assim, achamos que uma ou duas taças por semana enquanto sob dieta não afetará em muito o resultado final. O álcool é uma boa fonte de energia para o nosso corpo e ninguém é tolo para fazer com que nosso corpo prefira usar o acetato do álcool como fonte de energia prioritária, quando na verdade temos de fazer com que carboidratos e gorduras sejam utilizados preferencialmente.

    Acho que a promessa a ser feita, a cada dia e não apenas no primeiro dia do ano, é que hoje eu vou comer e beber moderadamente. O seu corpo vai refletir o seu bom senso.

    Se as amigas tiverem perguntas sobre dietas e consumo de bebidas alcoólicas é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha no www.adegaebar.com.br.

    Reze por São Vicente

    por Sonia Melier em 08/01/2004 | 21:00

    Vamos rezar por São Vicente no próximo 22 de janeiro. É o santo patrono dos viticultores e vinicultores em todo o mundo. Seu nome é invocado há séculos. A primeira vila do Brasil foi fundada em 22 de janeiro de 1532 em sua homenagem. Seu donatário, Martim Afonso de Souza, trouxe em sua comitiva Brás Cubas, o primeiro a plantar e cultivar a vinha no Brasil.

    São Vicente era diácono de Saragossa, Espanha. Foi preso, torturado e morto por ordem do imperador romano Diocleciano, em 305. Jamais negou o seu credo, jamais abandonou um sorriso confiante na agonia. Seu corpo foi deixado para os abutres, mas um corvo o defendeu. Foi jogado no mar, que o devolveu à terra firme. Uma mulher, finalmente, o enterrou. Seu culto alastrou-se por toda a Europa e relíquias suas espalharam-se pelo continente. Quildérico I trouxe sua túnica e sandália para Paris, em 542, abrigando-as numa igreja construída em sua homenagem – igreja mais tarde chamada de St. Germain-des-Prés.

    O dia 22 marca a data, no hemisfério norte, do início estação do vinho. A partir dessa data promove-se uma limpeza geral no vinhedo, que começa pela poda das vinhas: corta-se 95% do que cresceu em 2003: dos ramos, dos sarmentos e folhas, de modo a fazer com que a videira concentre-se nas flores e frutos. Uma decisão difícil, pois a safra de 2004 vai depender diretamente do que se podará e do que se deixará de cortar. É a fase mais importante do cultivo, decisiva na produção.
    Começa assim a via-crúcis do viticultor, o que se ocupa das vinhas. Ele vai pedir a São Vicente que, durante o ano, o ajude na luta contra pragas, chuvas, secas, geadas. O vinicultor, responsável pelos vinhos, não terá preocupações menores.

    Em meados de janeiro, ainda, na vinícola é feita a manutenção do equipamento. Os vinhos das safras passadas, guardados em barris ou em tonéis, começam a ser processados para a venda.

    Em fevereiro, termina-se a poda. Novas mudas são plantadas. Na vinícola, coloca-se o vinho em barris novos ou em tonéis, o que é mais comum, já que os barris são muito caros. Os barris usados são limpos para reutilização.
    Lá por março o solo está sendo trabalhado, arejado. Na vinícola, termina-se de engarrafar o vinho produzido em 2003.

    Abril ainda vê manutenção no vinhedo e na vinícola encerra-se tudo do ano anterior que não tinha sido ainda feito.
    Reza-se muito por São Vicente em maio por causa da eventualidade de geadas. Fogueiras são acesas no vinhedo para combatê-las. A primeira vaporização é feita nesse período, contra o míldio, a doença fungicida mais comum da videira, que ataca as folhas, principalmente, além brotos e flores. E também contra o oídio, outro fungo, que ataca os órgãos da planta.

    A videira começa a florescer em junho. Será que a produção será boa. Quanto será produzido? É feita uma segunda vaporização.

    Em julho, pequenos grãos aparecem e começam a desenvolver-se. A vinícola é praticamente esterilizada para evitar contaminações por bactérias.
    Em agosto, a cor desse bago começa a mudar. De verde passa lentamente para púrpura ou para um amarelo-limão, dependendo da variedade da uva, se tinta ou branca. É o que chamam de “veraison”. No começo, os grãos são duros, contêm muita acidez e lhes faltam glicose e frutose. São ainda verdes por conterem muita clorofila. Depois de uns seis dias, começam a ganhar cor e aumentam seu tamanho. Ficam mais maduros (mais açúcar) e sua acidez começa a cair. Nesse ponto, o viticultor retira todas as uvas ainda verdes, só deixando as que mudaram de cor. Isso para poder criar vinhos mais concentrados, até porque, com menos uvas, a produção será menor.

    As colheitas começam a ser feitas em fins de setembro e estendem-se por todo outubro. O trabalho maior agora é na vinícola, com a prensagem das uvas que chegam. No hemisfério sul, isso acontece entre janeiro e março.

    As uvas são recebidas na cantina, pesadas e classificadas. São despejadas num tanque e levadas para máquinas, as desengaçadeiras, que lhes retiram os cabinhos, talos etc. e rompe seus grãos sem amassar os caroços. O suco entra em contato com o fermento natural (aquele pozinho branco que você pode ver em quase qualquer uva) e o processo de fermentação tem início, quando aquele rico caldo se transformará em álcool etílico. E assim nasce o nosso rico vinho.

    Esse processo se estende de novembro até dezembro. E, num resumo muito resumido, o vinho de 2004 estará pronto, com toda a ajuda possível de São Vicente e de seus fiéis seguidores: viticultores e vinicultores. Agora é só esperar por 2005 para experimentar desse vinho novo.

    Outras possibilidades. Agora, se a amiga não é fiel a São Vicente e acha que dever torcer por outros sucessos, além da safra do vinho, apresento algumas opções:

    O 22 de janeiro é também aniversário de Lord Byron (1788). O grande poeta dizia que “O melhor da vida é a intoxicação” (pelo álcool, pois o poeta não era fácil). Leia alguns de seus poemas entre goles de conhaque.
    No dia seguinte, 23, tem o aniversário do inesquecível Humphrey Bogart (1899). Suas últimas palavras: “Nunca deveria ter trocado o uísque pelo Martini”. Por respeito, assista Casablanca bebendo scotch e pouco gelo.

    Pode ainda celebrar, no dia 24, a venda da primeira cerveja em lata (1935). A ciência às vezes aparece com algo que funciona. Beba com a cerveja da minha terra: a Itaipava.

    Outras possibilidades em janeiro são o aniversário, dia 29, do ator W. C. Fields (1880), um dos grandes comediantes do bom cinema de priscas eras e porrista maior ainda. “Foi uma mulher que me levou a beber e eu nunca tive a gentileza de agradecê-la”. Comemore com um Gimlet (meio copo de gim e meio de suco de limão; gelo à vontade).

    Se conseguir sobreviver, tente ainda comemorar o aniversário de Franklin Roosevelt (1882), dia 30. Só o fato de ter acabado com a Lei Seca nos Estados Unidos já seria o bastante para elevá-lo à condição de supremo estadista. Mas o homem acabou também com a Depressão (e famosa quebradeira econômica, a de 1929, minhas senhoras; nada com brigas conjugais ou até mesmo amorosas). E venceu os nazistas. O chato é que morreu antes de ver Hemingway retomar o bar do Hotel Ritz em Paris. Celebre com martinis de gim bem gelados, temperados com uma lasquinha de limão.

    Eu vou ficando com São Vicente, mesmo sabendo que “Um barril de vinho pode operar mais milagres do que uma igreja cheia de santos”, como reza um provérbio italiano.

    Previsões para 2004

    por Sonia Melier em 01/01/2004 | 21:00

    Uma amiga despejou sobre minha mesa uma pilha de recortes com previsões sobre 2004 assinadas por pais de santo, astrólogos, futurólogos, cartomantes e que tais. Tudo porque tinha dito que precisava preparar uma coluna com alguma coisa do que poderá acontecer no mundo das bebidas em 2004. Nada mal começar o ano com uma agenda, acho eu.

    Não esperava por adivinhações. Algumas delas, inclusive, simpáticas, motivadoras. Diz um recorte que 2004 será de Peixes, um ano de criatividade, “um ano propício ao inédito, ao amadurecimento da cultura brasileira…”. Ótimo, sem dúvida. E eu que pensava que Peixes, segundo astrólogo famoso, é “a ausência de forma, embora um vasto oceano de potencialidades; um estado vazio, sem nada, envolto em incerteza e paz, mas que precede a criação”.

    Devemos ter cautela com essas previsões. A maioria delas é genérica demais. Até porque seria um exagero pedir que nos dissessem como será o mercado das tubaínas em 2004. Não vão conseguir dizer. Mas eu vou tentar. O que diz minha Bola de Cristal? Não, não faço adivinhações, mas pacientemente reúno um considerável banco de dados. A partir do qual podemos tentar vislumbrar alguma coisa do ano que começa.

    Um mundo obeso

    As coisas agora estão bem menos simples. Como lembra a revista The Economist: antes os ricos eram os gordos e os pobres magros, famintos. Hoje, os ricos são magros e os pobres gordos. E todos se preocupam com a obesidade do mundo.

    Essa questão vem dando fortes dores de cabeça nos fabricantes de refrigerantes nos principais mercados mundiais. É um movimento que tende a causar mais barulho em 2004 e que certamente vai chamar a atenção e até envolver você e todas nós, com filhos, sobrinhos, netos, afilhados etc., que estariam perdendo saúde e anormalmente engordando em razão das coca-colas da vida.

    A indústria de refrigerantes em mercados da importância do norte-americano e do inglês está sendo acusada pelos governos de ambos os países de estar na origem dos altos índices de obesidade entre crianças. Empresas como a Coca e a Pepsi-Cola já estão sendo afastadas de programas infanto-juvenis na televisão; de colocar sua publicidade em ônibus escolares e até mesmo em lanchonetes escolares.

    Pode parecer surpreendente para nós, no Brasil, sob a influência da Campanha Fome Zero, mas a humanidade já ganhou a batalha contra a fome. Temos hoje o bastante para comer: nós, nossos filhos, netos e descendentes. O problema aqui é o da exclusão: 53 milhões de brasileiros (segundo a Fundação Getúlio Vargas) estão abaixo da linha da pobreza. Aqui, os pobres são magros mesmo. Quanto àquela faixa de pobres e remediados, mas gordos, será que proibindo os refrigerantes resolve o assunto?

    A obesidade é considerada como a principal causa das doenças cardíacas, que mata mais gente hoje do que a AIDS, a malária, a guerra, além de ser o principal fator de risco dos diabetes. Ela foi oficialmente classificada como epidemia em 2000 pela Organização Mundial da Saúde. E os governos começaram a preocupar-se.

    Proibir os refrigerantes resolve o assunto? Muitos especialistas acham que sim, argumentando que os hábitos dietéticos são fixados logo na infância. Quando nosso garoto fica gordo pra valer é improvável que volte a uma forma mais saudável, já que se acostumou a comer fritas com Coca-cola no café. E se acostumou com a ajuda dos seus responsáveis.

    Mas os governos querem restringir tudo, como publicidade de refrigerantes e junk-food para crianças e jovens. Acho que os governos devem esclarecer no que pode resultar esse tipo de dieta. Mas a última palavra está mesmo com os pais ou responsáveis por essas crianças. Colocar toda a culpa nos refrigerantes e nos hambúrgueres é querer apenas criar bodes expiatórios, tirar o corpo fora. O problema começa mesmo em casa. Agora, não adianta os fabricantes darem uma de avestruz e negar que exista uma relação entre esses refrigerantes e a obesidade. Vamos passar 2004 lendo e debatendo sobre esse assunto.

    Um mundo muito alto

    O mundo está efetivamente mais “alto”, bebendo demais, não importa que controles legais existam para os excessos. E o pior: bebe-se demais sem que se saiba exatamente o quê e quanto está indo goela abaixo.

    Em razão disso, importantes grupos de consumidores solicitaram ao governo norte-americano que modifiquem radicalmente os rótulos de cervejas, vinhos e destilados. Eles querem que esses rótulos informem:

    a) sobre o conteúdo alcoólico expresso como uma percentagem do volume; b) a dose padrão;
    c) o conteúdo de álcool por dose;
    d) o número de calorias por dose;
    e) os ingredientes da bebida;
    f) a quantidade de doses por recipiente (garrafa, lata etc.);
    g) recomendação de autoridade de saúde para a quantidade adequada de drinques para homens e para mulheres.

    Esses grupos afirmam (e com toda a razão) que os rótulos atuais são inconsistentes, confusos e que não ajudam os consumidores. Querem para as bebidas alcoólicas o mesmo tratamento dado aos produtos alimentícios.

    Faz sentido. Vai haver dificuldades, em particular no caso do vinho, onde o número de ingredientes é muito alto. Mas acho que vale a pena tentar. Temos que saber o que estamos bebendo e o que isso pode nos custar.

    Por trás disso está a campanha contra as bebidas alcoólicas. Muitos grupos querem proibir a publicidade de qualquer bebida, em qualquer tipo de mídia. Os reflexos já são sentidos em todo o mundo. No Brasil, associações de publicitários conseguiu ganhar tempo com um plano de auto-regulamentação, já colocado em prática. O mesmo acontece no resto do mundo.

    Não é brincadeira, não, o que se está bebendo em excesso esses dias. Para vocês terem uma idéia: o Brasil é o quarto maior consumidor do mundo de cerveja. Sim, bebemos em 8,35 bilhões de litros em 2002. Os cinco maiores do mundo são: Estados Unidos, com 23,8 bilhões de litros, com a China logo atrás, consumindo 23,5 bilhões, seguida pela Alemanha, com 10,5 bilhões, depois o Brasil e em quinto a Rússia, com 7,08 bilhões de litros.

    Como dizem que nosso consumo de cerveja representa uma pálida idéia do que se entorna de cachaça, o melhor é não colocar o pé na estrada.

    Mas o que a indústria está querendo é evitar radicalismos como o que produziu a Lei Seca, nos anos 30, nos Estados Unidos, e que só serviu para aumentar a corrupção e o consumo clandestino, de bebidas produzidas sem quaisquer preocupações com qualidade ou saúde.

    A indústria de bebidas alcoólicas deve continuar em 2004 o seu trabalho de educar o consumidor quanto aos perigos do excesso (e os novos rótulos vão servir para isso) e colocá-lo numa saia-justa social: beber demais pega mal.

    Quantos aos vinhos

    Vamos ter vinhos da Austrália, Nova Zelândia e alguns dos Estados Unidos (como o do produtor Bonny Doon) cada vez mais com tampas de rosca metálica. E vamos, em 2004, continuar esperando pelo milagre da rolha de cortiça à prova de fungos, como o TCA, essa praga que danifica pelo menos 5% dos vinhos em todo o mundo. Vamos também continuar acompanhando o debate sobre a superioridade das rolhas de cortiça sobre as novas tampas: de plástico e de rosca metálica.

    Espanha, Chile e Argentina certamente continuarão a brilhar em 2004, com participações cada vez maiores nos grandes mercados importadores. Vão reunir igualmente cada vez mais elogios para seus vinhos.

    Espera-se que a produção em excesso sofra uma redução. Pois é, o mundo produz mais vinho do que pode consumir. O excesso é tradicionalmente transformado em álcool ou destilado. Mas também pode virar um vinho barato e atrair consumidores que só querem saber de preço e não de qualidade. Isso vem acontecendo há dois anos nos Estados Unidos. Um produtor da Califórnia lançou uma linha de vinhos por US$ 1,99, quase dois dólares, que o povo de lá apelidou de “Two-Buck Chuck” (poderíamos traduzir como “Vinho de Dois Real”, assim mesmo, sem o “s”). Quem vendia vinho mais barato, mas de qualidade sofreu. O “Two-Buck Chuck” vendeu até agora cinco milhões de caixas, 60 milhões de garrafas. É para derrubar qualquer um, inclusive os grandes produtores.

    A torcida é a favor de que esse fenômeno da superprodução seja menos destrutivo. Muitos produtores quebraram por não conseguir concorrer com a façanha (ou picaretagem) do “vinho de dois real”.

    Continuaremos também a ouvir mais sobre as propriedades do vinho e seus benefícios para a saúde. Para isso, não precisamos de adivinhações. Agora mesmo descobriram que o vinho tinto, quando passa por uma fase de amadurecimento em barril de carvalho, pode conter substância com poderoso agente anticancerígeno. A descoberta é da equipe francesa do Instituto Europeu de Química e Biologia. E a substância salvadora é chamada de acutissimin A.

    Mas não só o vinho é bom para a saúde. Sabe-se agora que o suco de uva pode melhorar bastante a nossa memória e nossos órgãos motores. A descoberta é de uma equipe do laboratório de neurociências do Centro de Pesquisa de Nutrição Humana para Idosos, nos Estados Unidos.

    Temos mais um par de palpites para 2004, mas a matéria já está grande. Espero que em 2004 o nosso querido vinho, degustado com moderação, ajude as amigas a momentos de relaxamento, equilíbrio e reflexão. Ofereça oportunidades de celebrar a vida e a fazer contato com o próximo. Feliz 2004!