A coluna passada (”É isso?”), sobre álcool e broxidões ao mesmo tempo agradou e preocupou uma leitora de Cuiabá. Ela tem amizades importantes que se relacionam mal com as bebidas. E quer que falemos mais a respeito.
Confesso que a coluna passada também me inquietou. Para ilustrar o assunto, citei Shakespeare. Utilizei uma referência famosa, bastante conhecida e que vinha a calhar com a matéria. A bebida…”Provoca o desejo, mas arruína a performance”. Só que citei Hamlet. Mas essa referência, que já apareceu em colunas anteriores, e corretamente, é de Macbeth (ato II, cena III). Leitoras, perdoem.
A bebida alcoólica é um problema quando consumida em excesso. Aliás, todos os excessos representam problemas. Os refrigerantes, por exemplo, estão sob grande pressão nos Estados Unidos e na Inglaterra. Estão entre os possíveis responsáveis pela obesidade de crianças e jovens. A Coca-Cola inglesa já retirou sua publicidade das lanchonetes que servem em escolas.
Quanto ao excesso de álcool, já sabemos o que pode causar - e a citada broxidão é o menor dos problemas. Na Rússia, onde na média se bebe três litros de vodka por semana, 1/3 das mortes por doenças cardiovasculares são atribuídas ao álcool. Quinhentas pessoas em 100 mil morrem em função direta do excesso alcoólico.
O excesso mata ou inutiliza, “arruína a performance”, rouba-nos a potência, a vontade.
A nossa cuiabana quer saber os malefícios da bebida a partir dos 30 anos. Não li nada especificamente relacionado a excessos a partir dessa faixa de idade. As pesquisas que tenho lido remetem sempre a faixas de idade: de 15 a 25, de 25 a 45, de 50 a 70 etc. Só recolhi uma referência que será comentada adiante.
Depende muito de quando a pessoa começou a pisar um pouco mais no acelerador. Vale aqui a metáfora do cidadão pacato, que durante a semana, de segunda a sexta, anda sempre de metrô, mas quando chega sábado pega o carro e dá 150 km em plena via pública. Não adianta a pessoa dizer que é abstêmio todos os dias, menos um, quando compensa de modo destruidor os 6 dias de seca.
Os excessos devem ser comentados e tratados, na verdade, por um especialista: um médico, um assistente social, um psicanalista. Ou mesmo pelo pessoal, sempre sério e eficiente, dos Alcoólicos Anônimos.
Abstinência mata. Para que não fiquem dúvidas: o álcool em excesso vicia, é perigoso. Centenas de milhares de pessoas morrem todos os anos em razão de abusos. Ninguém deve beber e dirigir. Jovens, grávidas, pessoas sob medicamentos contendo contra-indicações e com problemas de domar o seu consumo não deveriam beber.
Agora, o que as pessoas talvez ainda não saibam é que um drinque (para mulheres) ou dois (para homens) por dia é a dose perfeita para ajudar a prevenir ataques cardíacos e fazer com que possamos viver mais tempo.
Epidemiologistas norte-americanos estimam que se amanhã toda população do seu país parasse de beber, de tomar qualquer gotícula de álcool, virasse abstêmia de dar inveja a religiosos fundamentalistas, cerca de 800 mil pessoas morreriam por ano de doenças cardíacas.
O coração mata mais que cirrose, câncer, acidentes etc. O maior estudo sobre mortalidade, que pesquisou meio milhão de pessoas durante nove anos, descobriu que bebedores moderados, acima dos 30 anos, tinham 20% menos chances de morrer prematuramente do que abstêmios nessa faixa de idade. Olha ai uma referência ao grupo de 30 anos.
Os benefícios do álcool vêm sendo demonstrados durante os últimos 20 anos. As autoridades inglesas da área de saúde pública afirmam que as pessoas que bebem muito pouco ou nada bebem formam um grupo com alto risco de doenças cardíacas. Essas pessoas, diz o governo inglês, “devem considerar a possibilidade de beber moderadamente, em benefício de sua saúde”.
A Associação Americana do Coração informa que: “Se você bebe, faça-o com moderação…” e, em seguida informa que as pessoas que bebem moderadamente têm menos chances de sofrer do coração.
As bebidas saudáveis caem em três categorias: água, sucos de fruta e o nosso velho álcool. Em 1997, a Organização Mundial de Saúde, da ONU, formalizou que um drinque por dia reduz o risco de doenças do coração e de infartos. A rica lista de componentes saudáveis do vinho e talvez da cerveja devem ter contribuído para a decisão da OMS.
Essa mesma OMS concorda que a bebida alcoólica promove sociabilidade e solidariedade.
Os americanos vão comemorar agora, 14 de fevereiro, o Dia de São Valentim, que lá é o padroeiro dos namorados. São Valentim é também o patrono do fígado, seu protetor. Aparentemente, essas duas propriedades do santo não combinam. Talvez possamos encontrar um significado no próprio Macbeth, onde aprendemos, entre outras leituras, que as aparências enganam. O que parecer ser bom pode ser ruim, ao final. Aquele Romeu de hoje pode virar um Macbeth amanhã. As bebidas alcoólicas podem ser boas ou ruins, dependendo de como são consumidas.
Se você optar por algo radicalmente diferente de sucos, água ou bebidas alcoólicas, tente a poção das bruxas que pontificam no Macbeth. A receita pede sapo, filé de cobra, olho de salamandra, patinha de rã… Enfim, se quiser saber de todos os ingredientes é só ler a peça de Shakespeare ou clicar para o Bolsa ou para a Soninha no www.adegaebar.com.br.



