Às oito em ponto, na esquina, sozinho, grande ou pequeno, preto, branco, marrom ou malhado, com ou sem pedigree, o cachorro está amarrado em frente à padaria. A coleira, presa no canteiro com um nó. O dono, não vemos, mas está comprando meia dúzia de pães franceses.
Quando passo, olho para o cachorro, o cachorro olha para mim, e toda vez que um bicho me encara por mais de três segundos me pergunto o que ele quer dizer. É típico do homem falar uma coisa quando na verdade quer dizer outra. Já o cachorro, se pudesse, abriria o jogo.
O cachorro na porta da padaria é uma metáfora que me persegue há meses e se renova a cada um que espera o dono voltar. Entre eles, há o que se conforma com a situação, apesar de não entendê-la. Não resta opção senão esperar. Sentado. Boceja. Coça-se. Deita, apoia a cabeça nas patas dianteiras e tira um cochilo, despertando nos passantes compaixão e, conforme o porte e o grau de ameaça envolvido, ganha um carinho que lhe estica os pelos.
Há também o cachorro que derrama seus sentimentos na calçada. Sofre e faz questão de deixar isso claro. Puxa a coleira a ponto de se enforcar. Late como quem dá uma bronca no dono. Uiva apontando o focinho para um céu sem estrelas.
E há, por fim, o cachorro que não late tampouco dorme. Ele fica de pé, andando de um lado para o outro ou até onde a coleira permite. Levanta as orelhas, abaixa, estica-se, mira com olhos atentos o interior da loja, os corredores, a fila, tem medo de ser abandonado, e está à espera do dono, em quem confia e a quem receberá com pulos e lambidas. É com esse cachorro, amarrado na frente da padaria, pequeno, malhado, que me identifico.





