No mundo, Woody Allen. No Brasil, Domingos Oliveira. No sábado, o documentário que a atriz Maria Ribeiro fez sobre ele.
Logo no começo do filme, Domingos diz que a vida é uma rameira e o amor, uma selvageria. Domingos diz que já sofreu muito, mas só por amor. Sofrimento, se não mata, torna você mais simpático – diz ele. Depois, transforma-se em obra de arte. Domingos disse que se apaixonou pela Fulana de Tal assim que a viu. Aliás, naquela noite se apaixonou por duas ou três – disse ele. Na época tinha coração para isso.
Fulana de Tal era Leila Diniz e o filme que a história rendeu, Todas as mulheres do mundo.
Quando Domingos fala de paixão de forma totalmente despudorada, me identifico com ele. Há quem respeite a paixão. Há quem tenha cerimônia com ela, e prefira o distanciamento. São muitos os que ficam sem jeito diante da paixão. E os que não ligam o nome à pessoa ou não sabem como se dirigir a ela, como se a paixão fosse a rainha da Inglaterra.
Da paixão, como Domingos, sou íntima. Temos uma relação chegada e libidinosa, eu e a paixão. Ela abre a minha geladeira e coça as minhas costas onde não alcanço. Na frente dela, faço xixi de porta aberta.
Quando se dá muita intimidade para a paixão, ela vem com tudo: diz que vai dar só uma passadinha, mas estende a visita pelo fim de semana, 10 dias, as férias inteiras. Três meses depois, a paixão está instalada, virou a dona da casa - até o dia em que vai embora sem se despedir. E não cabe chororô: sei que ela volta.
Na saída do cinema, olho para o chão, mastigando as frases que saíram da boca de Domingos. Quando olho para a frente, o próprio. Em transe, ouço meu marido sugerir que a gente vá cumprimenta-lo. Não posso: Domingos, sim, é a rainha da Inglaterra. Volto para casa correndo e, antes de dormir, revejo Todas as mulheres do mundo.





