Quando eu era uma menina sardenta, de marias-chiquinhas e calcinhas de babado, fiz um desenho para o meu pai, como presente de aniversário: um coração, colorido de vermelho com pilot de ponta grossa, contorno em preto. No lado direito do coração (VD), havia um buraco de fechadura. Em anexo, uma chave - ou o desenho de uma chave - pequena, pintada de marrom, recortada com todo o capricho de uma menina de 5 anos.
Meu pai até gostou do presente, principalmente depois que minha mãe explicou a ele o significado - não sei se era o mesmo para mim. Ele passou a mão no desenho, agradeceu pela última vez e guardou o meu coração no guarda-roupa, dentro de um envelope pardo, embaixo das calças de prega, entre o pote de moedas antigas e um pacote de bombom Serenata.
Durante anos, fui feliz.
Tinha horror a meninos: mostrava-lhes a língua e passava-lhes a unha. Pulava elástico até a altura da cintura e brincava de cama de gato. Comia pão com açúcar e jujubas vermelhas. Ganhei medalha de ouro no campeonato de ginástica olímpica do Tijuca Tênis Clube - a favorita, minha melhor amiga, faltou.
Até que um dia, levantei antes do despertador e tinha 14 anos. Sentei na privada e, enquanto o xixi escorria, fiz a mistura do pó branco com água oxigenada de vinte volumes. Corri a pá de plástico do tornozelo ao joelho, voltei pelas panturrilhas e terminei nas axilas das pernas. Mais uma boa pincelada nas coxas, o restante nos antebraços, 15 minutos e uma ducha gelada, fiquei pronta. De toalha na cabeça, cruzei as pernas e me fitei com olhos de cobiça.
Justo nessa noite quando eu estava menstruada e éramos convidados de um casamento de espanhol, alguém invadiu a casa.
Era um homem forte, um homem másculo, de olhar vivo e veias altas. Um homem que poderia pedir, mas preferiu roubar. Ele invadiu o quarto dos meus pais, abriu o armário e a porta rangeu. Meu pai não ouviu, porque estava dormindo, sonhando com a minha mãe. O homem, então, afastou as calças de prega, mordeu as moedas antigas, comeu um Serenata e abriu o envelope pardo.
Suas mãos ásperas rasgaram o papel, frágil como a idade. O homem pegou a chave do meu coração, virou duas vezes na fechadura que ficava no lado direito e entrou. Ninguém nunca havia feito isso e, uma vez feito, outro não poderia repetir, visto que o homem, ligeiro, engoliu a chave - ou o desenho de uma chave - pequena, pintada de marrom, com todo o capricho de uma menina de 5 anos.
Naquela noite, não pude ver seu rosto. Mas acho que era você.






Mine-jah fez um comentário:
10/02/2012 | 21:17 #
Nossa….Adorei!