• Saudades?

    por Rosana Caiado em 21/11/2011 | 20:44

    Estou deitada, olhos fechados, dorso da mão esquerda sobre a testa, quando toca o telefone. É uma amiga, aflita. Diz que recebeu um e-mail de um rapaz em que está escrito “Oi”, seguido de cinco pontos de exclamação. Continua: “Tudo certo para hoje” com sete interrogações. Minha amiga está intrigada com a pontuação do affair.

    - A sequência de exclamações e interrogações me confunde – diz ela.

    Isso me faz lembrar um dia, há muitos, quando recebi o e-mail de um ex. Ele falava coisas sem nenhuma importância e terminava de um jeito que não esqueci por meses: “saudades…”. Não era simplesmente “saudades”, mas a palavra seguida por reticências. Quase morri, mãos na cabeça, cabeça em remoinho. Dia e noite, por muitos dias e inúmeras noites, tentei decifrar o significado das reticências. Consultei amigos, inimigos, búzios, estrelas e taxistas, mas ninguém foi capaz de me dar uma resposta definitiva.

    As reticências poderiam dizer: “Vamos nos encontrar mesmo que seja por uma única noite, porque o meu corpo sente falta do seu”. Ou: “Me dá mais uma chance. Ainda penso em você”. Ou ainda: “Volta pra mim, não sei viver sem você, fui um idiota”.

    A verdade é que a maioria não consegue enxergar uma diferença que é evidente: “saudades!” é muito diferente de “saudades!!!” que é bem diferente de “saudades.”, que nada tem a ver com “saudades…”.

    Demorei a entender que, para o meu ex, a pontuação não queria dizer nada. Nada! Nada!!! Nada… Por acaso, eram três pontinhos, mas podiam ser três exclamações, ou um ponto final (na nossa história). Poderia ser até uma interrogação: “Saudades?”

    Minha amiga acha que a ligação caiu.

    - Estou ouvindo – digo.

    - O que quer dizer essa sequência de exclamações e interrogações?

    - Não quer dizer nada. Não tem nenhum significado oculto por trás da pontuação desse rapaz.

    - Jura?

    - Responde logo esse negócio.

    - Vou responder assim: Oi. Ponto. Confirmado. Ponto. Me pega às nove. Um único ponto de interrogação.

    - Ótimo! Desde já os dois mantém a individualidade.

    - E os beijos?

    - Que beijos?

    - Ele se despediu com “beijosssss” com vários “esses”.

    - E daí?

    - Acho melhor um beijo só: “beijo”.

    - Por quê?

    - Porque é um beijo na boca!

    - Ele não vai entender!

    - Não???

    - Só se você botar “beijo” seguido por reticências…

    - “Beijo…”? Ah, não!!! Fica muito oferecido… Vou escrever que nem ele, porque aí, desde já, fica uma relação de igual pra igual.

    - Você vai escrever beijos com vários “esses”???

    - Cinco “esses”, que nem ele!

    - Não combina com você.

    - Ah, deixa eu responder logo esse negócio… Um beijão!

    - Beijão? Com quantos “ós”? Exclamação ou reticências?…

    Ela desliga.

    Volto a ficar sozinha na cama, olhos fechados, dorso da mão esquerda sobre a testa. É esse silêncio que me mata.

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    Últimos comentários (2)

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    1. sol_vq_libriana fez um comentário:

      22/11/2011 | 12:49 #

      Vc é extraordinariamente… incrível!!!

    2. rcaiado fez um comentário:

      22/11/2011 | 14:03 #

      Obrigada! :-)

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