Em 1911, nasceu Alminthas, cabelos eternamente castanhos e olhos verdes. Pariu Eudóxio, Amélia, Edith, José e Lurdes, que, por sua vez, botaram no mundo Marilene, Marilúcia, Marisa, Manoel, Pedro, Paulo, Fraga Neto, Júlio César, Cinthya Maria, Marco Aurélio, Sílvia Maria, Suzana, Luciana e eu.
CENA 23.678.994.325.999 - SALA DE JANTAR - INT/NOITE
EDITH (MINHA MÃE) E FILO (A ACOMPANHANTE DA MINHA AVÓ), TOMAM CAFÉ.
ALMINTHAS ENTRA, BRAVA.
ALMINTHAS - Como é que você me deixa ir para o hospital sem calcinha, Filó?
ALMINTHAS SAI.
EDITH E FILÓ RIEM.
CORTA PARA:
CENA 23.678.994.326.000 - CORREDOR DO HOSPITAL - INT/DIA
FILÓ E EDITH, ABATIDAS, ENCOSTADAS DA PAREDE.
FILÓ - Ela disse isso e foi embora. Estava brava que só vendo. Mão na cintura e tudo!
EDITH - E depois?
FILÓ - Eu acordei…
EDITH- Essa do sonho é a minha mãe de verdade!
CORTA PARA:
CENA 23.678.994.326.001 - CTI - INT/DIA
APITOS DOS APARELHOS. MÁQUINA DE HEMODIÁLISE. RESPIRADOR. LENÇOIS BRANCOS. ALMINTHAS ENTUBADA, PROFUNDAMENTE SEDADA.
CORTA PARA:
FIM?
Há algo de muito errado nisso. Não lembro da vó brava, mesmo sabendo que ela é. A minha avó balança a barriga, usa roupa florida, gosta de ganhar de presente talco e sabonete. O cheiro do CTI entrou no meu nariz e não quer sair.
***
O padre colocou a mão sobre a testa da minha vó, disse a ela que não está sozinha (o que eu já tinha avisado) e que é preciso tranquilidade e coragem. Muita coragem. Passou um óleo em cruz na testa da minha vó. Depois veio uma freira, que me abraçou com força e botou o meu rosto no seu peito.
Ontem foi a vez da psicóloga, que disse para conversarmos com a minha vó, darmos notícias e dizermos quem são as visitas. Minha mãe contou tudo, mandou beijos de quem telefonou, disse que nós a amamos. Espero nunca desejar a morte da minha própria mãe.
Os médicos usam metáforas: é como um cristal que pode se quebrar ou uma vela que pode se apagar. Vêem os corpos como objetos ou jamais deixariam descoberto o peito da minha vó.
***
Tive um sonho com a minha vó. Foi um sonho mudo: sorriso no rosto e roupa preferida no corpo, durou o tempo de um tchau: mão para lá e para cá.
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Os olhos da minha avó são os mais fechados que já vi. Mas eu sei que são verdes, mais verdes do que os olhos verdes costumam ser.
***
Minha avó morreu.
Decepcionou a inabilidade do hospital com o corpo, enrolado em um lençol verde, sem nome, ao lado de mais três, sobre uma mesa de mármore.
Sou a favor da cremação. Se for preferível enterrar, que ao menos o plano funerário seja tão corriqueiro como o de saúde, para poupar os que ficam de encarar seus limites ao ver flácido, o forte, e pálido, o rosado. Que as funerárias sejam ágeis e não peçam para ficar com o cartão do INSS. E que todas as famílias sejam grandes, para cada um fazer um tanto, justo o que o outro se mostrar inapto: que haja meia dúzia que reze, três que cantem, alguns que chorem, uma dezena que ampare, dois que vistam o corpo desobediente e, ao menos, quatro para segurar as alças.
Ontem não sabia dizer o nome completo dos meus tios, onde guardo a chave do carro, em que gaveta deixei o pai-nosso. Não chorei.
***
Sonhei com a minha avó de novo. Dessa vez, o sonho teve falas: ela falou e eu fiquei prestando atenção. Contou que ouviu tudo o que dissemos enquanto ela estava no CTI, nossas rezas e confissões. Ela ouviu nossas lágrimas molhando o travesseiro. Disse que já sabia o final da história. Depois riu, balançando a barriga. Acho que ganhei um anjo.
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