O envelope, recém-comprado, era lilás. O papel, fino. A caneta, preta. Meu coração esmurrava as costelas. Coloquei o papel fino por cima de um caderno antigo, cuja pauta me auxiliaria a não subir nem descer a ladeira. E escrevi “Flávio, gostaria muito de te conhecer, mas não sei como”.
Andei até a janela e reli a frase três vezes. Ainda que sem motivo para pressa, a letra tinha saído corrida. Mesmo uma letra, no papel, não consegue disfarçar seu nervosismo. Reescrevi a mesma frase o mais devagar possível. Foram necessárias três tentativas. Dobrei o papel fino, enfiei no envelope lilás, passei cola e apertei-o contra o peito. Guardei o envelope dentro da gaveta de blusas e fui dormir, pensando que a parte mais difícil seria o dia seguinte.
Fiquei nervosa, enfiei o envelope lilás debaixo do limpador de pára-brisa, peguei o branco e voltei para casa correndo
O despertador tocou um pouco antes das seis. Ainda estava escuro. Vesti uma roupa discreta e bati a porta, com o envelope lilás dentro da bolsa. Andei até o final da rua, deserta, onde, como de hábito, estava estacionado o carro dele. O medo, em especial o do flagrante, estremecia minhas mãos e pernas. Pensei em desistir, quase, mas consegui fazer tudo como planejado: levantei o limpador de pára-brisa, coloquei o envelope lilás sobre o vidro e abaixei o limpador em poucos segundos. Nenhuma testemunha.
Fui à padaria e pedi um sonho.
No segundo dia, não consegui levantar às seis porque custei a conseguir dormir. Pensei muitas coisas ao mesmo tempo, reações, extravio, desprezo, gargalhadas, vergonha, e isso tudo virou insônia. Flávio não sairia de carro antes das sete. Com quinze minutos de folga, caminhei até o final da rua, mas o carro não estava no lugar de hábito. Olhei em volta, até encontrá-lo duas vagas adiante. Como no dia anterior, em poucos segundos, coloquei o envelope lilás embaixo do limpador de pára-brisa - o primeiro não estava mais lá. Dentro do envelope, no papel fino estava escrito “Então resolvi me apresentar”. Eu tinha colocado uma foto da minha infância, subindo a escada da casa dos meus avós, de maria-chiquinha e óculos escuros.
No terceiro dia, já estava escolada. Levantei quinze para as sete, vesti uma camisa cor de abóbora e dei passos largos até o carro dele, que estava no local de hábito. Na hora de colocar debaixo do limpador de pára-brisa o terceiro envelope lilás que guardava a frase “Me tira uma dúvida: você é livre? porfavordigaquesim@gmail.com“, veio o susto na forma de um envelope branco, pequeno, desses que vêm em buquê de rosas. Fiquei nervosa, enfiei o envelope lilás debaixo do limpador de pára-brisa, peguei o branco e voltei para casa correndo, trêmula, muito trêmula. No elevador, subindo, abri o envelope branco e li uma única vez: “Pare com isso, você é completamente louca”.
Voltei depressa para tentar pegar de volta o envelope lilás. Completamente. Se possível fosse, os três envelopes lilases. Louca. Mas ele, o meu vizinho, Flávio, estava lá, de pé, junto do carro. E, ao me ver com os olhos esbugalhados e o envelope branco na mão, tirou a única coisa que ainda me restava: o anonimato.
Fui à drogaria e pedi um analgésico.






GiSa_NaT fez um comentário:
09/11/2009 | 17:13 #
Foi a decepção do meu dia… Ainda bem que já passou das 18:00.
GiSa_NaT fez um comentário:
09/11/2009 | 17:17 #
Acertem seus relógios, já estamos no horário de verão.
MMS87 fez um comentário:
11/11/2009 | 07:39 #
Continua essa história, pleease!
Neurohtica fez um comentário:
11/11/2009 | 08:34 #
HAUAHAUHAAUAHAUHAUHAUAHUAHAU
Por favor, fala que isso NAO aconteceu! (Nem parecido)
lubu fez um comentário:
11/11/2009 | 12:46 #
Nemmmmmm…E o resto?
suvaleria fez um comentário:
11/11/2009 | 13:31 #
Por favor continue essa história!!Não é possível que acabe assim…
PaullynhaCris fez um comentário:
11/11/2009 | 20:29 #
o que o Flávio fez? kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Naty Á. Machado fez um comentário:
13/11/2009 | 08:28 #
O que aconteceu.. ao que o Flávio fez?????????????????????