Caminhamos de braços dados, eu e minha irmã. Eu olho para o chão, ela, para a nossa prima que está três passos à frente, de mãos dadas com seu primeiro namorado, ambos com 14 anos.
Caminhamos de braços dados, eu e minha irmã. Eu olho para o chão, ela, para a nossa prima que está três passos à frente, de mãos dadas com seu primeiro namorado, ambos com 14 anos.
Lurdes está tomando antibiótico de seis em seis horas. Me pergunta quando deve ser o próximo, se o último foi às 14h30. “20h30″, respondo. “E depois?” “2h30″. “Perfeito”. “Perfeito para quê?”
Toca o telefone celular de Lurdes. Ela pede licença, deixa as minhas mãos sobre a toalha e atende.
Demorei a encontrar Lurdes. Por meses tive uma manicure por semana, ainda que a preferência seja a fidelidade. Até Lurdes, cada manicure tinha um problema: ou tirava bife, ou não sabia puxar o esmalte. Ou demorava muito, ou falava demais. Ou o mais irritante, cortava as unhas de tamanhos diferentes - uma longa, uma média, uma curta, alternando.
Foi então que, ali na esquina, em um salão pequeno, meia hora antes de uma festa, conheci Lurdes - um desses exemplos de que a felicidade pode estar mais perto do que se imagina. Ou de que se fosse cobra mordia.
Logo na primeira vez, gostei de Lurdes. Cortou todas as unhas do mesmo tamanho e tem olhos azuis. Tendo a simpatizar com pessoas de olhos azuis. Depois de passar o óleo secante, Lurdes perguntou se eu tinha gostado. “Muito”, respondi. (Comigo é sempre assim: muito).
Lurdes disse o seu nome e perguntou se eu não iria esquecer. “De jeito nenhum. É o nome da minha madrinha, que tem olhos azuis como os seus”. Lurdes também gostou de mim e garantiu que não esqueceria o meu nome.
Na semana seguinte, com as pontas das unhas descascadas, telefonei e perguntei se ela se lembrava de mim. Não lembrava. Dica: “Minha madrinha também se chama Lurdes”. “Ah, a loirinha apressada”. Lurdes sabe fazer o perfil de um personagem.
Lurdes comemora quando passo esmalte preto. Diz que é mais fácil de limpar, já que não enxerga bem os transparentes. Lurdes tem “40 graus”, “Malícia”, 60 anos e grande senso de humor.
“Hoje você vai para a mansão?”, fala Lurdes ao telefone celular. Presto atenção. “Pode deixar que vou levar uns negocinhos”. Drogas ilícitas? “Tem que misturar arroz com cimento”. Macumba? “Ou então carne moída com Bombril”. Jesus! “Ele só passa lá em casa às três da manhã”. E desliga.
Quando Lurdes olha para mim, meu rosto está retesado. Lurdes explica que era a colega que mora com ela durante a semana. No sábado, as duas vão para suas casas, ficar com a família. Na terça-feira de manhã, partem para a zona sul, onde dividem uma quitinete. “A mansão”. O resto do telefonema era sobre o cardápio - os negocinhos que Lurdes vai oferecer a um rato que tem entrado na mansão por volta das três da manhã.
Lurdes vai levantar às duas e meia para tomar o antibiótico e preparar a ceia do rato: passou na obra ao lado e pediu um tanto de cimento. O pedreiro ensinou como se faz - tem que ser em cima da hora, para não endurecer antes de o rato chegar. Está tudo planejado.
Lurdes acaba de passar o óleo secante, quando pergunto por que ela não compra chumbinho. “Ih, chumbinho está muito manjado. Os ratos olham e nem comem”. Saio apressada e me despeço dos olhos azuis de Lurdes. “Até a semana que vem”.
Estou em um teco-teco cinza, voando em linha reta. O céu está azul. Somos eu e o piloto, de quem não vejo o rosto. A viagem está calma, sem turbulências. Até que, de repente, o chão sob meus pés se abre e caio em queda livre. Não tenho pára-quedas. Minha respiração acelera e sei que acordei, mas não consigo abrir os olhos colados por rímel e remelas.
Respiração acelerada, reclamo, engulo, mudo de posição e arregalo. É como se o sono tivesse sido interrompido bruscamente pelo teco-teco. Como se eu tivesse mais para sonhar, ou como se merecesse acordar aos poucos e não de supetão, como às vezes a vida teima em ser.
Ontem foi pior: bateram na porta do meu quarto, ou sonhei que bateram na porta do quarto. Acordei e fiquei com medo. Depois voltei a dormir, mas custei muitas lágrimas
O sonho do teco-teco tem se repetido ao longo da semana. Quando o vôo começa é como um aviso: estou prestes a acordar. Abro os olhos, checo imediatamente os ponteiros do relógio - não pararam. São sete e meia. Todos os dias, não importa se fui deitar às dez ou às duas, caio do teco-teco às sete e meia, no máximo, às oito.
Acontece muito de acordar no meio da noite como se a campainha tivesse tocado. De todos, esse é o sonho mais real que já tive. A campainha é a do apartamento, som de “zê”. Sento na cama, checo imediatamente os ponteiros do relógio - não pararam. São duas da manhã. Não, não é possível, não é ninguém, ninguém tocou a campainha, foi apenas um sonho. E volto a dormir, mas custo.
Além da campainha, o celular toca dentro do meu sonho. Acordo. Pego o telefone celular - nenhuma chamada - e volto a dormir. Mas custo. Ontem foi pior: bateram na porta do meu quarto, ou sonhei que bateram na porta do quarto. Acordei e fiquei com medo. Depois voltei a dormir, mas custei muitas lágrimas.
Me pergunto se a leitora já sonhou repetidas vezes que caiu do teco-teco poucos segundos antes de acordar. Ou se já foi acordada por toque de campainha, ou telefone dentro do sonho. Gostaria que esses sonhos fossem mais um dos que todo mundo sonha, como que está pelado na rua ou que vai cair (não do teco-teco, mas sozinha) - esse eu sonho mais no sofá, em cochilos e não em sonhos em cruzeiro.
Estou dormindo quando alguém chama o meu nome. Acendo a luz do quarto - ninguém. Checo os ponteiros do relógio - pararam. Não consigo mais dormir.