• Amanhã

    por Rosana Caiado em 29/03/2009 | 21:00

    Ele entrará, me dará um pequeno abraço, olhará para a sala e dirá:

    - Que sala ampla!

    Agradecerei no automático, porque dezenas já terão dito o mesmo.

    - Trouxe o que eu pedi? - perguntarei.

    Ele fará que sim com a cabeça e estenderá o braço (direto ou esquerdo?), me mostrando uma sacola (parda?) onde estariam os três objetos.

    - Quem começa? - perguntará.
    - Primeiro as damas - direi.

    Pedirei licença e irei até a cozinha onde pegarei uma garrafa de vinho rosê previamente gelada. De volta, entregarei a garrafa a ele junto com o abridor. Com os dedos da mão direita sinalizarei que se trata do meu primeiro objeto. Pedirei que faça a gentileza, para que eu pegue as taças. Enquanto ele estiver abrindo a garrafa, olharei para a sua boca apertada e seus braços dourados, fazendo força contra a rolha.

    Sentaremos um de frente para o outro. Ele me servirá e brindaremos.

    - Seus olhos são os mais verdes que já vi - direi.

    Ele agradecerá no automático, porque dezenas já terão dito o mesmo.

    Retirará da sacola o seu primeiro objeto. Será um CD gravado, que imediatamente colocarei para tocar no som da sala. Será uma música sensual, que nunca terei ouvido, mas gostarei.

    - É um dos meus grandes defeitos: não tenho cultura musical - direi, encabulada.
    - Se esse é dos grandes, garanto que vou adorar todos os outros - ele dirá, sedutor.
    - Você é um sedutor - direi.
    - Como você.

    Elipse.

    Tomarei sua mão, andaremos juntos os 13 passos do corredor e entraremos no quarto. Estará quase escuro, mas não acenderei a luz. O levarei até a primeira porta do armário, que abrirei e em seguida mostrarei dois dedos da mão direita.

    Diante de nós, as prateleiras onde guardo as roupas de cama e banho.

    ‘O levarei até a segunda porta do armário e abrirei a primeira gaveta, onde guardo 57 calcinhas e quatro sutiãs.

    Ele dará um sorriso (mais para uma gargalhada) e ficará olhando minhas toalhas coloridas e meus lençóis brancos. Não dirá nada, mas estará me achando maluquinha.

    - Coloque o nariz dentro do armário e respire fundo - ordenarei.

    Ele sentirá o cheiro de Aloe Vera do meu amaciante preferido. Tentará dizer algo, que não sei o que é. Eu o interromperei.

    - Logo que vim morar aqui, me sentia uma visita no meu próprio apartamento. Então, sempre que queria me sentir em casa, abria a porta deste armário e respirava fundo, como você fez agora, para me sentir confortável.
    - Você é maluquinha - ele dirá.
    - Seja bem-vindo - direi.

    Nesse momento, ele poderá me dar o nosso primeiro beijo. Poderá ser um selinho, mas ele pensará que ainda é cedo e, infelizmente, não terá a ousadia.

    - Sua vez - direi.

    Andaremos de volta até a sala, sem as mãos dadas. Na sala, ele enfiará a mão dentro da sacola (parda?) e pedirá que eu feche os olhos. Sentirei um pouco de receio, mas obedecerei. Ele colocará o segundo dos três objetos em minhas mãos e ficarei tocando nele, que nem uma boba, até me dar conta de que é um (não sei o que é e terei que improvisar).

    Elipse.

    - E a sua terceira coisa? - ele perguntará.

    Tomarei sua mão, andaremos juntos os 13 passos do corredor e entraremos no quarto. Estará escuro e acenderei o abajur, que tem lâmpada de 30 volts. O levarei até a segunda porta do armário e abrirei a primeira gaveta, onde guardo 57 calcinhas e quatro sutiãs.

    Outra vez, ele dará um sorriso (mais para uma gargalhada) e pedirei que ele escolha uma calcinha para eu vestir.

    - Você está sem nada? - perguntará.
    - Escolhe - ordenarei.

    E torcerei para que ele escolha a calcinha preta, que terei comprado especialmente. Mas ele escolherá uma branca, sem nem olhar as outras. Abaixarei, colocarei a perna direita e depois a esquerda e subirei a calcinha branca pelas canelas por debaixo do vestido.

    - Sua vez - direi.

    Nessa hora, ele mostrará três dedos da mão direita e me dará o nosso primeiro beijo, que será longo.

    Ele sussurrará no meu ouvido:

    - Que beijo gostoso.

    Agradecerei no automático, porque dezenas já terão dito o mesmo.

    E enfim deixarei que ele faça o que quiser.

    Tenho dois gatos por quatro meses

    por Rosana Caiado em 22/03/2009 | 21:00

    Um amigo de um amigo vai viajar por quatro meses. Ele está procurando alguém que possa hospedar seus dois gatos durante esse período. Topo.

    O amigo do amigo liga para o meu celular e pergunta se sou carinhosa. Eu digo que não vou fazer churrasquinho dos gatos e, no segundo seguinte, me arrependo. Eles chegarão em dois dias e se chamam Fingo e Nia. Abro um arquivo no Word para não esquecer - nomesdosgatos.doc.

    Vejo uma foto do gato (Fingo) na internet. Sempre quis ter um gato cinza. Três minutos depois, mando a foto para a minha irmã. Assunto: gato. Corpo do email: Quer ver uma foto do "meu" gato? Coloquei aspas, mas foi só pra disfarçar.

    Salvo a foto no desktop - aprimeiravezquetevi.jpg.

    Não encontro uma foto da gata (Nia), mas soube que ela é branca e preta. Ela também é conhecida como a gata de porcelana.

    ***

    Estou um pouco mal humorada. Os gatos chegaram na sexta-feira por volta das 17h. Deram três passos na sala, esticando o pescoço e cheirando o ar. Depois caminharam lentamente pelo corredor até o quarto, onde se enfiaram debaixo da cama.

    Se eu tivesse uma secretária, pediria que ela cancelasse todos os meus compromissos. Não posso deixar os gatos sozinhos na minha casa. Ou não posso deixar a minha casa sozinha com os gatos.

    No dia seguinte, todas as minhas amigas telefonam. Parece que é o dia do meu aniversário. Não perguntam por mim, mas por eles.

    - O nome do gato é Fingo - respondo.
    - Pingo?
    - Não! Fingo, com "efe".

    Pingo é meu apelido de infância. Não havia notado que Fingo é quase meu xará.

    - E a gata, Nia - continuo.
    - Mia?
    - Não. Nia, com "ene".

    Fingo é muito bonito, como todos os gatos - talvez um pouco mais. Passo a mão em seu pelo cinza e repito:

    - Pingo, você é muito bonito, muito bonito.

    Quando vamos dormir, Pingo está sem sono. Gatos dormem durante o dia e querem brincar à noite, como um hamster que eu tive aos 10 anos na casa dos meus pais. O hamster tinha uma rodinha onde ficava correndo a noite toda, como se estivesse na esteira de uma academia de ginástica. Pingo não tem rodinha e corre da sala para o quarto e do quarto para a sala. Pingo quer bater o recorde mundial dos 18 metros rasos.

    Porcelana não sai de debaixo da cama. Quando ela olha para mim, é nos olhos. Ela fica parada por horas seguidas, honrando o apelido que tem. Às vezes, ela balança o rabo.

    Pingo e Porcelana ainda estão assustados. Amigas me aconselharam a conversar com eles, contar que o dono foi viajar, que não se trata de abandono, que telefonou pedindo notícias e vai voltar dentro de quatro meses. Depois, tenho que prometer que vou ser boazinha enquanto eles estiverem comigo. Decoro as frases para não esquecer - conversacomPingoePorcelana.doc.

    - Pingo, preciso falar com você.

    Coloco a televisão no mudo. Explico tudo para ele, enquanto faço carinho na sua cabeça cinza. Pingo mexe as orelhas. No final, peço que ele converse com a Porcelana. Pingo desce do sofá e corre para o quarto, para debaixo da cama, onde ela está. Dou um riso mas ninguém vê.

    Embora preferisse o contrário, me pareço mais com Porcelana do que com Pingo.

    Olhar 43

    por Rosana Caiado em 15/03/2009 | 21:00

    Eu estava em uma festa, segurando um copo e olhando para os lados à procura de um tema para esta coluna. Passava das onze e eu coçava a cabeça, quando o DJ ouviu meus pedidos e tocou uma música que reconheci nos primeiros acordes. Entrei em um túnel até a pré-adolescência, quando, aos nove, dancei a mesma música com o menino por quem estava apaixonada.

    A música: "Olhar 43". O menino: moreno, mais baixo do que eu, cabelo de cuia e pernas arqueadas. Não revelarei seu nome porque é desses que só se conhece um ou dois ao longo da vida. Trocávamos bilhetinhos em que ele se dizia afim de mim e da minha melhor amiga - o que não atrapalhava em nada a nossa amizade. Em um dos bilhetes, desenhou um retângulo e pediu que eu mandasse para ele um beijo pelo papel. Depois de treinar em outras superfícies como espelho, mão e folhas de caderno, com várias cores de batom e diferentes aberturas de lábios, beijei o retângulo como quem beija a boca do menino e perdi a virgindade de beijo no papel.

    ‘Quando a música acaba, de volta do túnel, uma amiga que não estava ouvindo meus pensamentos concentrada que estava nos próprios, conta que ficou com Paulo Ricardo.

    Dançar com ele na festa americana no play de uma amiga foi um daqueles momentos em que só existem duas pessoas no mundo, a despeito dos outros convidados - a turma toda da escola. Ele dançava bem, muito bem, e levantava uma das pernas arqueadas como quem chuta uma bola com a parte interna do pé. Eu olhava em seus olhos e em seguida desviava para o chão - a cena da tímida a qual ainda recorro nos momentos de conquista. As luzes coloridas iluminavam seu rosto e o nosso futuro: beijos, namoro, igreja, filhos e caminhar de braço dado em direção ao pôr-do-sol. Durante a música, que pareceu durar meia hora e se repetiu em meus pensamentos por muitos dias, noites inteiras, conversas por telefone e banhos demorados, senti meus primeiros arrepios e contrações involuntárias do abdome.

    Para uma menina magricela que sequer tinha beijado na boca (fora a vez do papel), aquela dança foi o ápice do primeiro amor.

    Nunca o beijei.

    Nas brincadeiras de salada-mista, ele acabou beijando a minha melhor amiga, aquela de quem ele também estava afim, atrás da cortina do quarto cor-de-rosa dela. Eu só fui beijar a primeira vez alguns anos depois, um menino que nem era do colégio, tinha acabado de arrancar o siso e estava com gosto de dentista.

    ***

    Quando a música acaba, de volta do túnel, uma amiga que não estava ouvindo meus pensamentos concentrada que estava nos próprios, conta que ficou com Paulo Ricardo. É um choque, mas consigo pescar frases como "ele estava me secando", "encarnação do desejo da minha adolescência", "ficamos", "começou a ficar mais quente", "carro", "motel", "estava maneiro", "tiramos a roupa", "maneiríssimo", "transamos", "ele disse: ‘vou te fazer uma surpresa'", "subiu na cama, tocou guitarra no ar e começou a cantar ‘olhar 43'", "queria sumir".

    Ainda bem que nunca beijei Ulisses.

    Desculpe o transtorno

    por Rosana Caiado em 08/03/2009 | 21:00

    "Desculpe o transtorno. Elevador em conservação". Pisco os dois olhos por três segundos, encho os pulmões de ar e encaro a escada.

    Aconteceu justo na sexta-feira. Antonio, o zelador que varre a calçada, coloca o jornal sobre o capacho e deixa a portaria com perfume de mulher, explica que o elevador costuma quebrar no meio da semana. Aí dá tempo do rapaz consertar no mesmo dia. Mas sexta-feira, sabe como é, tudo fica mais complicado. Resultado? Um fim de semana inteiro de escada.

    Conto: são 17 degraus entre um andar e outro. Como moro no quarto andar (e hoje é o primeiro dia em que me sinto feliz por não ter play nem garagem), 68 degraus me separam do térreo. Quando entro em casa, sozinha, deixando o resto do mundo para trás, meu coração esmurra o peito, como se batesse na porta e quisesse sair do corpo o quanto antes. Tomo um copo d'água gelada e enxugo a testa com papel toalha.

    O plano é passar o resto do fim de semana trancafiada. O real não passa longe disso: um breve encontro de trabalho, uma ida à piscina e uma visita à locadora - eles não entregam aos domingos.

    Depois de subir e descer algumas vezes, eu e a escada pegamos certa intimidade. Achava que ela era coberta por guimbas de cigarro, latas de refrigerante amassadas e baratas mortas. Um bêbado pedindo trocado, morcegos dormindo de cabeça para baixo e um saco plástico branco voando entre o segundo e o terceiro andares. Nada! A escada é bem cuidada - agradeço ao Antonio. O que amedronta é o escuro, mesmo dentro do quarto.

    A luz dos corredores funciona com censor de presença e apaga quando estou no décimo quinto dos 17 degraus do primeiro andar. Tenho que me segurar nas paredes, dos dois lados, para não tropeçar e cair. O mundo não para de rodar. No corredor do andar seguinte, abano os braços para o censor me detectar e tento subir o próximo lance o mais rápido possível. Não dá tempo e passo mais três ou quatro degraus me segurando nas paredes, com medo de esbarrar em teias de aranha ou chicletes mastigados - que não existem.

    No terceiro andar, duas das três portas têm mandalas com espelhos. Dizem que é para os maus espíritos verem seus reflexos e, assustados, irem embora. Um dos capachos é, na verdade, um tapete de banheiro. Verde. Em uma das portas está colado um adesivo onde leio "Deus protege quem sai e abençoa quem entra". A minha porta é das poucas que não é branca, ou gelo, ou suja, mas de madeira. E o meu capacho é o mais bonito. Disparado, trançado de vermelho.

    Subir a escada do prédio à noite é como dormir com a porta do armário aberta.

    Evitei as escadas depois das 22h, passei a chave duas vezes e, antes de deitar, olhei debaixo da cama. Amanhã, por favor, o elevador tem que estar consertado. Não consigo dormir e acabaram os florais.

    ***

    Levanto às seis sem despertador e não tem café da manhã. Chega um ponto em que a ida ao mercado é inadiável, ainda que o elevador esteja quebrado. Corto da lista os dois litros de Coca-Cola e a caixa de sabão em pó.

    Quero grudar as minhas dores na parede da escada com um chiclete sem açúcar, apagar a luz e não mais passar por lá.

    Angústia

    por Rosana Caiado em 01/03/2009 | 21:00

    - Você sabe tirar angústia?

    Ele está vendo o jogo na televisão e não me dá bola.

    - Você sabe tirar angústia? - cutuco.

    - Ãh?

    Explico pausadamente:

    - Você sabe um jeito de tirar essa angústia que está dentro do meu peito, bem aqui*, entre as minhas costelas?

    * Quando falo "aqui", pego a mão dele e coloco em cima da angústia, como uma mulher que, na cama, mostra onde é o lugar certo. Exatamente.

    - Não - ele responde sem pensar.

    Falta. Falta digna de cartão amarelo.

    - Para tirar angústia, você tem que pegá-la com a mão e jogar fora - resumo rapidamente.

    - Como é que eu vou fazer isso?

    - Dá um jeito!

    O time dele está na retranca.

    ‘Ele esfrega a ponta dos dedos indicador, médio e anelar na minha angústia. Olha pra mim e dá um beijo estalado entre as minhas costelas.

    - Por favor - cutuco.

    Ele passa a mão sobre as minhas costelas, em movimentos verticais, como se fosse até o pescoço e depois até o umbigo, só que menor.

    - Assim você não está tirando, está só tocando na angústia, o que pode fazer com que ela dobre de tamanho…

    (Se a intenção é tentar dissipar a angústia, em vez de movimentos verticais, é preferível fazer movimentos circulares no peito a la Vick Vaporub)

    - O que eu faço então? - ele pergunta, sem olhar pra mim.

    - Come a angústia! Mastiga! Joga no vento! Suga, cava, puxa, arranca… Usa os seus poderes.

    Ele passa a ponta dos dedos sobre a angústia e, um tanto envergonhado, leva a mão até a boca.

    - Você vai comer a angústia?

    - Vou.

    - Então, mastiga bem - cutuco.

    Ele mastiga devagar, como se angústia fosse bom.

    Bola na trave.

    - Você não pode tirar angústia e ver o jogo ao mesmo tempo.

    - Por que não?

    - Porque a angústia é caprichosa e não vai embora se não perceber afinco.

    Ele olha para mim e quer, acima de tudo, que minhas angústias cheguem para bem longe dali, pelo menos até o final do segundo tempo. Levanta e segue em direção à cozinha.

    Nessa hora, penso: "Ele vai pegar o aspirador de pó, ele vai pegar o aspirador de pó, ele vai pegar o aspirador de pó". Ele ligaria o aspirador na tomada, escolheria o bico ("o de canto, o de canto"), aspiraria a angústia debaixo das minhas costelas, puxando levemente a pele pelo cano. Tiraria o coletor descartável e jogaria na lixeira do prédio. Eu só sorrisos, pulando pelo corredor, ida e volta.

    Mas ele vem da cozinha com uma lata de cerveja na mão.

    - Quer?

    Aceito. Ele senta ao meu lado e pergunta onde está exatamente. Eu mostro. Ele esfrega a ponta dos dedos indicador, médio e anelar na minha angústia. Olha pra mim e dá um beijo estalado entre as minhas costelas.

    - Passou? - pergunta.

    E na terceira latinha, depois do apito final, a angústia sai de campo.