É que nem flanelinha e motorista de ônibus: chega a ser um clichê reclamar de vizinho, esses desafortunados que dividem com você o elevador e o corredor do prédio, dormem, acordam, se alimentam e se reproduzem à esquerda ou à direita, abaixo ou acima da sua cabeça. Eu, eu adoro os meus vizinhos. Eles não têm cachorro - exceto Pingo - , não escutam música alta - exceto aos domingos -, nunca chamaram a polícia - exceto na minha última festa de aniversário -, não são fofoqueiros - exceto eu. E nunca tentaram envenenar meu gato - mas eu nem tenho um.
À direita, o casal Fofinho. O casal Fofinho se mudou há pouco, não tem filhos e trabalha junto. Tem temperamento dócil, porte médio e grande vigor físico.Tolera bem pessoas estranhas, é ativo e facilmente domesticado. Tem hábitos diurnos, pintou a parede da sala de amarelo e pregou sobre ela o quadro de uma flor amarela - pelo que pude ver do corredor, uma orquídea. Costuma jogar videogame à noite, quando vêm do lado de lá da parede seqüências de tiros e grandes explosões. Houve uma vez em que o CF alugou um aparelho de videokê. Durante o fim de semana, sem parar, marido CF e mulher CF se mostraram companheiros camaradas e alternaram irmãmente a posse do microfone - ora Legião Urbana, ora Kid Abelha.
O casal Fofinho é feliz. Só de vez em quando é que briga. É a CF fêmea quem dá os gritos mais altos. Ouço da minha sala o que se passa no quarto deles. Não só as brigas, claro. Há também as brincadeiras de casal e as cócegas, sempre as cócegas. De uma a três vezes por semana, o casal Fofinho tem seus momentos. São afetuosos e gostam de ver um filme para aquecer.
À frente, Bruna, minha vizinha mirim. Bruna tem grandes olhos verdes, ainda não completou dez anos e bate no meu peito. Bruna é dona do meu vizinho mais barulhento - o já mencionado Pingo, um Yorkshire filhote. Bruna e Pingo têm meu afeto, apesar dos latidos neuróticos de um e do total desprezo do outro. Ao contrário de Bruna, Pingo me permite alisar sua cabeça e responde as minhas provocações. Bruna faz que não me vê.
À esquerda, Teresa. A vizinha que me fez enfileirar esse monte de palavras e formar a coluna. Me reservo o direito de escrever um longa-metragem em que ela é a protagonista. Teresa, Teté. Nunca a vi. Mora no outro bloco, o que significa que não partilhamos corredor e elevador, somente a parede que separa meu quarto de sua sala, onde fica sua secretária eletrônica. Teté mora sozinha e chega do trabalho todos os dias por volta das 20h. Do lado de lá, ouve os recados da secretária. Do lado de cá, com algum esforço, entendo metade das frases - confirmação da consulta médica, notícias de familiares, convites de amigas para um cinema no domingo. Poucos homens. Ou nenhum. Ontem, Teté chegou no horário de sempre, deu play e ouvimos juntas votos de felicidade, saúde e sucesso. Ontem foi o aniversário da Teresa. Houve quem cantasse "Parabéns pra você" do início ao fim, bradasse "ê" com entusiasmo invejável ou soltasse piadas tristes sobre o avançar da idade. Mais uma seqüência de recados como qualquer outra, não fosse a única e chamativa diferença: no dia seguinte, às sete da manhã, Teté tornou a ouvir os recados. E mais outra e outra vez. Teté se sente sozinha. Não sabe que logo ali, do outro lado da parede, me sinto eu.





