• Na mesa ao lado

    Ela só usa calcinha de renda, não tem dor de cabeça, não atrasa, não cobra, não é chata nunca, não pede para colocar o lixo pra fora, não pede para ir embora.

    por Rosana Caiado em 14/05/2012 | 16:20

    Na mesa ao lado, o rapaz vê o futuro dentro dos olhos da menina. Puxa as pontas dos seus cachos, entrelaça seus dedos nos dela, respira fundo em seu cangote, que é para decorar o perfume. Derruba a tulipa na mesa e pede desculpas. A menina gosta. Entende o nervosismo do rapaz, já que seu coração está também em descompasso só por bater diante dele. A menina acredita que dessa vez é para valer. Ri da piada sem graça. Vê charme na sobrancelha desalinhada e no quebrado do dente.

    Com os primeiros beijos, a competição é dura. A língua macia da menina escorrega entre os lábios grossos do rapaz pela primeira vez - gosto de hortelã e arrepios. + Leia mais

    Pequenas coisas

    Uma pessoa demora o tempo que passou com outra para esquecê-la. Se passei três anos com Fulano, demoro outros três para superá-lo.

    por Rosana Caiado em 07/05/2012 | 17:13

    Ontem chorei no metrô. Acho que não comentei, mas depois da noite com os alienígenas, o chip e a dor às três e meia da manhã , perdi a unha do pé, ou seja, a unha do pé caiu, caiu inteira, a unha do meu pé caiu,  fiquei sem a unha do dedão do pé e essa perda me deixou muito triste.

    Sem unha, o dedo ficou careca porque a unha é o cabelo do dedo, ainda mais do meu dedo, que usava perucas vermelhas, rosas ou liláses. O dedo ficou pelado, o meu sapato preferido virou o fechado. E, na hora de botar sandália, peguei um band-aid. Colei o band-aid e disse: “Essa é a melhor unha que posso ter no momento: um band-aid.” Você riu, e foi um riso de amor, um riso que só eu sei.

    Dentro do possível, estava tudo caminhando bem. Até que ontem no metrô lotado, em menos de 20 minutos, duas pessoas pisaram exatamente no meu dedo. Uma delas estava de salto. A outra pesava mais de 100 quilos. Eu gemi e elas pediram desculpas. Então comecei a chorar. Elas pediram desculpas outra vez como se eu estivesse exagerando e eu disse que estava sem unha. “É que estou sem a unha do dedão”, eu disse. Elas fizeram uma expressão de pena, como se entendessem as lágrimas que já molhavam a gola do vestido. Não era um choro só pela unha. Era um choro por tudo o mais.

    Uma vez, eu estava distraída, bati o rosto, bati o nariz contra uma porta de vidro. Doeu, claro que doeu. Sentei e chorei pela semana inteira, pelo ano todo, por tudo o que estava passando. No metrô, também foi assim.

    A unha caiu e nunca haverá outra unha igual àquela. Demorará um pouco, tempo que parecerá longo, mas então outra unha virá, forte e nova – ainda que não apague a memória da primeira, que me acompanhou desde o nascimento, que esteve junto comigo em tantas topadas e pisões, tantos chinelos e sapatos de bico fino, tantos carnavais, tantas poças em dias de chuva. São memórias entre mim e a minha unha, a minha unha que caiu e não vai mais voltar.

    Tenho uma teoria idiota que diz que a pessoa demora o tempo que passou com outra para esquecê-la. Por exemplo, se passei três anos com Fulano, demoro outros três para superá-lo. Se comecei com Siclano em março e com ele fiquei até maio, em agosto estarei nova em folha. No caso de uma unha que me acompanha desde o nascimento, dói pensar que só vou me conformar com essa perda quando cantar o sexagésimo oitavo parabéns.

    ***

    Coloquei uma unha postiça. Ficou ótimo e significou muito para mim. Às vezes, quase sempre, pequenas coisas significam muito.

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    Janelas para a literatura

    Um curso para quem acredita que o blog é uma janela para a literatura.

    por Rosana Caiado em 04/05/2012 | 12:00

    janelasComeça no dia 8 de maio no Centro Cultural da Justiça Federal (RJ) o curso Janelas para a Literatura - explorando a linguagem dos blogs. O curso terá aulas de Amanda Orlando, Denise Schettine, Fal Azevedo, Isabel A. W. de Nonno,   Leornardo Villa-Forte,  Luciana Bastos Figueiredo, Vivian Wyler e esta que vos digita.

    Ainda dá tempo de se inscrever. Vai .

    Inscrições também pelo telefone  2225-7186.

    O curso é um projeto da Plumagenz.

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    Diz que não sabe de mim

    Pedi mais uma cerveja e gastei três segundos - ou teria sido meia hora? - torcendo pra você passar na calçada.

    por Rosana Caiado em 30/04/2012 | 22:12

    Fiquei desconsertada. E uma longa sequência de perguntas endereçadas a mim, acuada no canto da mesa, tantas e sobre tantos temas, quando meu pensamento era um só. Taquicardia. Tremedeira.

    - É o frio.

    Depois passou.

    Eu não me importo, juro que não me importo. Faça o que quiser, quando, onde, como, com quem preferir. Eu não me importo. A vida é boa e não oscila de acordo com a sua. Depois daquele dia, veio outro como tantos que vivi sem você. Passei pela fila da vacina segurando o tríceps, gemendo ai, fazendo medo nas pessoas, sendo que nem tinha sentido a agulha. Depois ri de boba, almocei meia garrafa e lanchei pipoca doce. Pedi um café, mas só tinha cerveja. Estava gelada de doer os dentes, como a noite, como eu e o vento. E tinha esse rapaz na mesa ao lado de olho no meu cruzar de pernas, cruzando meu olhar, olhando para mim. Pedi mais uma cerveja e gastei três segundos - ou teria sido meia hora? - torcendo pra você passar na calçada. E me ver.

    E daí que a noite está fria e a cama, vazia? Tomo uma novela de banho escaldante até embaçar os vidros de perfume. Com a ponta do dedo indicador, escrevo o meu nome bem grande no espelho. Embaixo, uma flor. Visto o pijama que minha mãe trouxe de Teresópolis, esquento os lençóis com secador de cabelo, acendo a vela amarela de citronela, ligo um DVD de amor e não sinto falta de nada. Nada. Talvez chore na cena da despedida. Mas ninguém vai saber.

    Se alguém perguntar por mim, diz que não sabe de mim, que sumi, que me arrependi, que endoidei. Aprendi a viver sem você. Decorei lições, pratiquei e agora tiro de letra. Sei estacionar de ré, tenho carteira assinada, troco pneu, abro vidro de palmito, peguei intimidade com o saca-rolha, conserto computador, carrego peso, arrasto móvel, bato martelo e tenho maleta de ferramentas própria. Sou auto-suficiente, me auto-estimo, me autofaço cafuné e me autoponho para dormir. Complica quando sonho.

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    Meus 15 minutos como ladra de banco

    Àquela altura, arrombar a nossa própria porta tinha virado uma questão de honra.

    por Rosana Caiado em 16/04/2012 | 22:18

    Passava de dez da noite, quando meu marido bateu a porta de casa e nos demos conta de que estávamos sem chave, portanto, presos do lado de fora - às vezes, a sensação de estar preso vem ao ar livre. A partir daí começou a discussão sobre de quem era culpa, ainda que o caso fosse um  exemplo clássico de “deixa que eu deixo”.

    Depois de tentar ligar para três chaveiros diferentes e de passar mais de 10 minutos olhando para o nada, a única solução possível, se não quiséssemos passar a noite no sofá da portaria, seria arrombar a nossa própria porta. Foi nesse momento que a situação deixou de ser um drama para virar uma aventura.

    Pedimos ao porteiro uma chave de fenda emprestada e ele nos ofereceu também um alicate de ponta fina que, mesmo sem imaginar sua serventia, aceitamos. No elevador, tirei dos cabelos um par de grampos que saquei como armas no corredor escuro, mas logo comprovei que as chances de abrir a porta com eles eram próximas de zero. Recorremos então à chave de fenda para tirar o espelho da fechadura, quando pudemos então avistar uma luz no fim do túnel ou a ponta da maçaneta - um cotoco, que, se virado, abriria a porta. Adrenalina.

    O alicate estava sendo útil, mas a ponta fina dificultava, e muito, o processo. Nessa hora tivemos uma mãozinha do acaso: nossa vizinha argentina saiu para levar o lixo. Ela estava com cheiro de amaciante e nos ofereceu ajuda, buscando em seu apartamento um alicate com ponta mais apropriada. Estávamos indo bem: além de um pouco de sorte, ter a ferramenta certa muda tudo.

    Em seguida, a vizinha se ofereceu para telefonar para outro chaveiro mas, àquela altura, arrombar a nossa própria porta tinha virado uma questão de honra, um jogo que queríamos ganhar, um frisson, meus 15 minutos como ladra de banco. Ou assistente de ladrão de banco.

    - Posso tentar? - perguntei.

    Meu marido, suado de tanto forçar a porta, não levou fé. Mas deixou, para poder descansar um pouco.

    - Talvez seja uma questão de jeito - eu disse.

    Na maioria das vezes,  não é na força que se consegue as coisas, mas no jeito. Examinei o cotoco, visualizei o movimento que precisaria ser feito, usei a ferramenta na vertical em vez de na horizontal como meu marido vinha fazendo e, na primeira tentativa, houve um barulho, depois gelo seco e chuva de papel picado: a porta abriu, e comemoramos como se fosse final de Copa do Mundo ou como se tivéssemos aberto o cofre de um banco de milhões de dólares.

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    Para os meus padrões

    Quando como uma fruta de sobremesa, me sinto muito adulta. Quando me chamam de senhora, não gosto.

    por Rosana Caiado em 09/04/2012 | 23:38

    Fui ao cinema com uma amiga. Filme: Um método perigoso. No estacionamento, depois que fechei o carro e enquanto guardava a chave na bolsa, ela disse que estou adulta. “Você está tão adulta”, ela disse. Achei que era a bolsa, o relógio, o carro, a chave do carro, o vestido, ou o sapato, até que ela disse que eu tinha amadurecido. “Você amadureceu muito”, ela disse.

    A primeira vez que me senti adulta foi em Copacabana. A maré estava baixa e a gente andou um bom tempo até que a água chegasse aos joelhos. Eu e minha madrinha. Ela me ensinou a furar onda e eu pensei que tinha ficado adulta. “Pronto, fiquei adulta”, pensei.  Quando como uma fruta de sobremesa, me sinto muito adulta. Quando a casa está pronta para festa, me sinto adulta. Quando me chamam de senhora, não gosto. Sem maquiagem, vejo que os anos passaram pelo meu rosto.

    Em Um método perigoso, Jung vem seguindo os passos de Freud e começa a fazer psicanálise - que Freud então chama de psicoanálise. Freud acha que encontrou um discípulo que vai continuar trilhando o caminho traçado por ele, mas Jung passa a falar de uma força maior, talvez mística, que não poderia ser ignorada. Além disso, Jung se envolve com uma paciente.  Minha amiga é psicóloga e freudiana. No meio do filme, nao aguentei e perguntei para ela se aquilo tudo era verdade. “Isso é verdade?”, perguntei. Eu não sabia e, agora que sei, me sinto adulta.

    No dicionário, um dos sinônimos de amadurecer é aperfeiçoar-se. Mas talvez amadurecer seja saber que perfeição não existe - e não ficar emburrado por isso. O mundo dos adultos tem contas a pagar e sapos a engolir, além de boa comida. Uma das maiores vantagens de ser adulto é poder falar abertamente com os pais sobre qualquer assunto enquanto mata duas garrafas de vinho. Eu acho que maturidade e adulto são a mesma coisa, apesar de haver provas vivas de que não é bem assim.

    A maturidade deve ser cinza. Cinza e branca. Não que seja monótona, mas serena. Eu gosto de ser madura, mas não gosto de ser séria, que é uma coisa que muita gente fala, ainda mais quando estou de cinza. “Você é séria”, muita gente diz. E, quando muita gente fala a mesma coisa, tendo a acreditar. “Não acredito em coincidências”, Jung disse.

    No trabalho, um amigo vira-se para mim e diz que estou muito sóbria. “Você está tão sóbria”, ele disse e eu não estava de cinza, mas de jaqueta de bolinha, blusa listrada, sapato de onça, unhas vermelhas e quatro anéis. “Para os seus padrões”, ele disse.

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    Um pequeno ser humano

    Eu queria ter um bebê para vesti-la como uma princesa, se for menina, e tentar entender o sexo oposto, se for menino.

    por Rosana Caiado em 02/04/2012 | 22:58

    Às vezes, penso em ter um filho porque gostaria de gerar um ser humano dentro do meu corpo a partir das minhas próprias células e do meu sangue e de um óvulo que estava dentro do meu útero e foi encontrado pelo espermatozoide de um homem que é meu, que me ama como eu o amo e com quem minha vida é mais feliz. Eu queria gerar um ser humano dentro de mim, um pequeno ser humano, com dez dedos, dois olhos, duas orelhas, dois pulmões e um pâncreas, e depois iria me sentir uma pessoa incrível por ter conseguido fazer isso.

    Eu quero um dia ficar grávida, e quero que a minha barriga seja pontuda. Quero que o meu peito fique bem grande, e quero usar calça jeans com cintura de elástico. Iria fazer ultrassonografia, saber o sexo antes, ouvir o coração dele bater, sentir os movimentos do bebê dentro da minha barriga, e dormir de lado, que é como já faço.

    Compraria livros que falassem sobre gravidez e os primeiros meses. Comeria biscoito com feijão às duas da manhã e seria um clichê. Teria desculpa para dormir cedo, e tudo bem ter dor nas costas, e vomitar no início. Tudo bem parar de beber, tudo bem não comer sushi - não pode mesmo? Eu queria ter um bebê para vesti-la como uma princesa, se for menina, e tentar entender o sexo oposto, se for menino.

    Seria bom ter um filho para cuidar de mim quando eu ficar velha, dizer que minha roupa está ridícula, que está na hora de pintar a raiz, e que essa gíria não se usa mais.

    Talvez eu queira ter um filho pelos motivos mais loucos, como transformar o escritório em quarto de bebê.  Toda noite, antes de dormir, tenho pensado que quero ter um filho para amadurecer, redimensionar os problemas e formar a minha própria família. Eu quero ter um filho?

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    Senão morrerei

    Vamos nos ver hoje à noite? Faço uma depilação para você.

    por Rosana Caiado em 26/03/2012 | 21:08

    O que eu quero

    Quero ficar com você hoje à noite (senão morrerei).

    O que eu deveria fazer

    Esperar os minutos, depois as horas, talvez dias, seguindo as regras do Jogo do Amor.

    O que eu sinto

    Ansiedade e uma pontada na costela, do lado esquerdo.

    O que eu queria dizer

    Vamos nos ver hoje à noite? Faço um macarrão para você.

    Ou

    Vamos nos ver hoje à noite? Faço uma depilação para você.

    Ou

    Vamos nos ver hoje à noite? A noite inteira, inteirinha?

    Rascunho um e-mail que começa assim: “Por aqui, tudo bem, fora essa pontada nas minhas costelas, acho que entre a segunda e a terceira costela, de baixo para cima, no lado esquerdo, bem aqui. Não sei exatamente o que é, mas desconfio que seja saudade.”

    “Quando te encontrar, quero te abraçar por uma semana até o meu corpo perder as fronteiras no seu.”

    “Quando você começa uma frase com ‘eu adoro’, torço para que a palavra seguinte seja ‘você’. Mas é ‘o inverno’ ou ‘batata doce’ ou ‘a cor do céu às 6 da manhã’.

    Salvo como rascunho. Pego o telefone. Abro a geladeira. Pego o telefone. Suspiro. Pego o telefone. Tremo.

    O que eu digo

    Quais são seus planos para hoje à noite?

    E depois

    Ah, tudo bem.

    Desligo.

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    Adeus, manteiga

    Se eu não fosse ansiosa, seria esquelética.

    por Rosana Caiado em 19/03/2012 | 19:40

    Quando saia longa entrou na moda, pensei: “vou pedir para a minha mãe fazer uma para mim”. No dia seguinte, não deu tempo.

    - Rosana, minha filha, saia longa está na moda e vou fazer uma para você.

    Achei mágico.

    No fim de semana, fomos juntas à loja de tecidos onde compramos, além de aviamentos, três alturas de um pano xadrez. Poucos dias depois, a saia estava pronta, a saia mais linda de todas as saias - e era minha. Tive que me controlar para não usá-la todos os dias, e todo dia que a usava me sentia uma princesa. Até que minha mãe, sem querer dizer, disse:

    - Eu não queria dizer, mas essa saia te engorda.

    Corta para: adeus, manteiga. Queijo amarelo. Ovo mexido. Pipoca. Ai, que saudade.

    As pessoas gostam de falar do meu peso, embora eu nunca fale do peso dos outros. Não comento se a pessoa ganhou alguns quilos - ao menos, não na frente dela. Jamais perguntei se uma mulher estava grávida, quando não estava. Prefiro elogios e, se não tenho nada agradável para dizer, opto pela mudez. Pena que nem todos sigam o exemplo - principalmente, a minha mãe.

    Um dia cheguei aos 62 quilos. Na época, eu malhava todos os dias e músculo pesa. O mínimo que já pesei na balança foi 52 kg e eu parecia doente, o que de fato estava, como o meu corpo fazia questão de mostrar. Hoje peso 58 quilos - sem sapato, sem roupa, sem brinco, sem jantar, e quando o meu cabelo está curto. Eu deveria estar contente, mas a minha mãe disse que fico gorda com a minha saia preferida, a de princesa. Quando passo a mão no meu tronco, sinto as costelas. Se eu não fosse ansiosa, seria esquelética.

    Corta para: restaurante macrobiótico. Se eu contar para as minhas amigas, nenhuma acredita. Mas gostei e o risoto de salmão é uma delicinha. Salada verde orgânica com morango e kiwi. Suco de abacaxi. Tchau, Coca-cola. Ser magra requer comprometimento. Entrei na academia.

    Tenho 1,72m e peso 58kg, logo sou magra. Tenho Tenho 1,72m e peso 58kg, logo sou magra. Tenho 1,72m e peso 58kg, logo sou magra. Queria que fosse mágica.

    Passei a saia de princesa adiante. Se quiser me dar um abraço, pode.

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    Eu só queria ler o jornal

    Não é sempre, mas às vezes estou errada. Não é sempre, mas admito.

    por Rosana Caiado em 12/03/2012 | 23:33

    Acordo e é feriado. Está sol. Abro a porta de casa e o jornal não está sobre o capacho. Passo a mão no telefone, disco com força para a central de atendimento e mando um “escuta aqui”.

    - Escuta aqui, são dez da manhã e o meu jornal ainda não chegou.

    - Dona Rosana, a assinatura da senhora é de fim de semana.

    - Exatamente! - respondo.

    - Mas, dona Rosana, hoje é quarta-feira.

    Não é sempre, mas às vezes estou errada. Não é sempre, mas admito. O mundo não para de rodar e hoje é quarta-feira. O mundo anda depressa, mais depressa que eu. O mundo é um carrossel mas não tenho cavalo. Quero a minha vida, quero saber diferenciar o mundo da vida, e dar a cada um a atenção devida.

    Não sou obrigada a sair de casa, a beber com os amigos, a ir à praia, ao cinema, não sou obrigada a comer pizza, pipoca, a passear na Lagoa e a andar de bicicleta porque hoje é feriado. Eu só queria ler o jornal, mas a minha assinatura é de fim de semana. Não sou obrigada a ser feliz  porque hoje é feriado. Talvez eu tenha ficado velha antes do tempo, antes da vida, antes do mundo, antes do meu desejo. Eu só queria ficar em casa sem fazer nada - o que, por algum motivo, parece criminoso. Culpa, sinto culpa.  Eu só queria dançar uma música lenta. Eu só queria ler o jornal, mas hoje é quarta-feira e o mundo roda depressa demais, mais depressa que eu.

    Talvez eu não seja feliz. E o que há de errado com isso? Muita gente não é feliz. Por que eu, justo eu, seria feliz?

    Quando o tempo demora a passar: de meio dia a meio dia e meia. Quando passa rápido: de sete às oito (manhã). Quando para: quando estou na fila - mas já foi diferente. Quando voa: de sexta a domingo. O tempo, o mundo, a vida e os meus desejos lutam cada qual por seu espaço e eu aqui sem saber quando e aonde ir. O mundo que me desculpe, mas a vida é fundamental. O tempo não é para iniciantes. E o meu desejo?

    - Eu só queria ler o jornal.

    - Mas dona Rosana…

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